Pavel Golovkin/AP
Pavel Golovkin/AP

Crise na Rússia abala os mercados mundiais

Vice-presidente da autoridade monetária promete novas medidas e compara situação atual ao colapso mundial de 2008

Renato Oselame, Agência Estado

16 Dezembro 2014 | 12h12

O Banco Central da Rússia vai adotar outras medidas numa tentativa de estabilizar o mercado financeiro após o drástico aumento nos juros do país, afirmou nesta terça-feira, 16, o primeiro vice-presidente da instituição, Sergei Shvetsov - diz a agência de notícias russa Interfax. 

Ele também comentou que a situação financeira na Rússia é difícil e similar à crise de 2008.

A autoridade monetária aumentou a taxa básica em 6,5 pontos porcentuais de uma única vez na segunda-feira, 15, mas a ação não impede nova desvalorização do rublo nesta terça-feira. Às 9h35 (de Brasília), o dólar avançava mais de 22%, a uma máxima histórica de 73,724 rublos. 

Quatro das principais bolsas da Europa estavam em queda por volta das 12h08: Frankfourt, de 0,27%; Milão, de 0,41%; Paris, de 0,95%; e Madri, 0,98%. No Brasil, a Bovespa operava em queda 1,11%. 

"Após a decisão de elevar juros, outras ações serão tomadas pelo banco central", disse Shvetsov.

A estratégia emergencial de aumentar a taxa básica de juros para 17% ao ano surte pouco efeito no câmbio nesta terça. Tudo isso, em meio a uma nova queda nos preços do petróleo. Investidores questionam as opções e a capacidade do banco central do país de manter a estabilidade financeira local.

"Em uma situação em que o banco central permite que sua moeda deprecie 10% ao dia, a mensagem é a de que ele perdeu o controle, e sua credibilidade está em jogo", afirma Tim Ash, analista do banco Standard em nota a clientes. O economista considera que o BC russo não pode permitir uma desvalorização contínua "e deverá retornar com uma grande, grande intervenção no câmbio, ou novas elevações nos juros".

"O aumento nos juros é OK, mas aconteceu tarde demais. Se eles tivessem elevado nessa proporção na última quinta-feira e aumentassem as intervenções, isso teria acalmado o mercado", avalia Alexei Kulakov, diretor de operações com derivativos do Promsvyazbank.

Uma intervenção maior no mercado de câmbio também é a opção que a autoridade monetária russa deve adotar, segundo avaliação de Viktor Szabo, gerente de investimentos da Aberdeen Asset management. No entanto, ele considera que "o preço do petróleo precisa se estabilizar para que a pressão sobre o rublo diminua". No entanto, caso a avaliação de Moscou seja a de que as tensões políticas irão permanecer ao longo de 2015, o BC pode decidir intervir menos para preservar seus US$ 450 bilhões em reservas.

A ação do BC deve ajudar a mudar o equilíbrio de forças que vem desvalorizando o rublo nas últimas semanas, mas não será suficiente por si só, na avaliação do diretor de negociações do banco Otkritie, Pyotr Neimyshev. "Se for só uma alta de juros, não trará nada que não seja um impacto negativo sobre os negócios", comenta.

No entanto, nem todos os analistas acreditam que tais opções sejam suficientes para assegurar uma vitória do rublo. O banco Sberbank, em nota a clientes, pondera que a alta dos juros deve ter um efeito positivo no mercado de câmbio, mas que o banco central "deve reduzir a um mínimo, senão cortar, novos volumes de liquidez do rublo gerados em operações de refinanciamento".

Alguns economistas vão ainda mais longe e afirmam que nem mesmo um controle de capital poderá conter uma desvalorização da moeda nacional. Para Jason Pidcock, gestor de fundos de mercados emergentes da Newton, subsidiária do Bank of New York Mellon, "outras opções são relativamente limitadas e é por isso que considero que uma transação territorial pode ser uma possibilidade". Segundo ele, Moscou pode chegar ao ponto crítico de considerar uma venda do tipo à Pequim, cujas ambições territoriais têm se tornado mais evidentes.

Efeito Nabiullina. Em meio à turbulência cambial, a presidente do banco central russo, Elvira Nabiullina, fez discurso nesta terça-feira em rede de TV estatal para tentar tranquilizar o mercado após a elevação dos juros. Suas palavras, entretanto, não foram bem recebidas pelos investidores do país, que buscavam sinais mais claros do comprometimento do BC com a estabilidade financeira.

Nabiullina optou por relacionar a decisão de política monetária à necessidade de combater a inflação e ressaltou que o banco precisa tornar mais arriscadas as estratégias especulativas no mercado. A presidente da autoridade monetária também confirmou que não tem planos de impor nenhum tipo de "restrições administrativas" para combater a depreciação da moeda, descartando medos de que a Rússia adotaria medidas de controle de capital.

O BC do país já trabalha com a possibilidade do Produto Interno Bruto (PIB) encolher entre 4,5% e 4,7% em 2015, caso o preço do petróleo, seu principal produto de exportação, ficar em US$ 60 por barril. Com a commodity negociada abaixo deste patamar nesta terça-feira e uma alta surpreendente dos juros, o cenário deve se agravar. 

Petróleo. A Rússia vai manter o atual nível de produção de petróleo em 2015 e concorda com a avaliação de integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de que os mercados da commodity vão se corrigir por conta própria, afirmou hoje o ministro de Energia do país, Alexander Novak.

"Planejamos manter o atual volume de produção (no próximo ano), sem aumento ou redução", disse Novak a repórteres, às margens de uma conferência no Catar.

Novak notou, porém, que algumas petroleiras russas podem reconsiderar projetos de investimentos, diante da forte queda das cotações do petróleo desde meados do ano.

"A produção de petróleo poderá cair automaticamente por causa dos preços baixos e da decisão de algumas petroleiras de congelar projetos de investimentos por algum tempo", disse o ministro. "Isso é algo que não podemos descartar."

Novak disse ainda que se reuniu com alguns ministros de petróleo da Opep, da qual a Rússia não faz parte, antes da reunião do cartel, no fim de novembro.

"Todos os participantes da reunião concordaram que a situação vai ser corrigida pelo próprio mercado, em termos de equilíbrio entre oferta e demanda", afirmou Novak. "Concordamos com isso." (Com informações da Dow Jones Newswires).

Mais conteúdo sobre:
russia,crise,mercados

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.