Crise não foi superada, alerta o BIS

Na avaliação da instituição, a recuperação do mercado financeiro ainda está baseada na 'esperança'

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

08 de junho de 2009 | 00h00

Depois de meses de uma crise sem precedentes, o mercado financeiro dá sinais de sair de um coma profundo e investidores voltam a mostrar apetite por risco. O resultado é um mercado de ações mundial em alta e alguns índices financeiros já retornando a padrões registrados antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro. Quem vem se beneficiando com isso são principalmente os mercados emergentes, entre eles o Brasil, que voltam a receber grandes fluxos de capital. As conclusões são do Banco de Compensações Internacionais (BIS, o banco central dos bancos centrais), que aponta como um dos principais exemplos desse novo cenário de esperança a reviravolta positiva no balanço de pagamentos no Brasil. "Há uma percepção crescente entre investidores de que o pior da crise e da queda da economia podem já ter passado", afirmou o BIS em seu relatório trimestral publicado ontem. Essa percepção e a esperança de dias melhores para a economia mundial teriam provocado uma retomada do apetite de investidores entre o fim de fevereiro e maio para voltar a aplicar em vários instrumentos financeiros. Como resultado, os spreads (juros) diminuíram e a volatilidade do mercado caiu. Mas o BIS alerta: a recuperação do mercado ainda está baseada na "esperança". A crise ainda não foi superada, a contração das economias é profunda e importantes riscos ainda existem. De forma geral, o BIS deixa claro que o mercado financeiro internacional ainda não está plenamente nos mesmos níveis do período anterior à quebra da Lehman Brothers. O mercado de ações ainda está entre 20% e 30% abaixo, o mesmo ocorrendo no mercado de créditos e na avaliação dos spreads de papéis soberanos. O que existe, segundo o banco, são os primeiros sinais de uma estabilização diante das inúmeras medidas tomadas por governos, pacote trilionário e ações de bancos centrais.O tímido otimismo começa a beneficiar de novo os países emergentes. "Os fluxos financeiros aos mercados emergentes refletiram o retorno ao apetite ao risco", afirmou o BIS. "Dados mensais do balanço de pagamentos do Brasil mostram que uma grande fuga líquida de investimentos por estrangeiros no último trimestre de 2008 foi abatida nos primeiros três meses de 2009", destaca o BIS. Segundo o banco, o fluxo de capital para investimentos e ações até se tornou positivo a favor do Brasil em fevereiro e março, padrão parecido também registrado na Coreia e na Polônia. Os dados do BIS apontam que as bolsas dos países emergentes já somaram ganhos superiores às dos países industrializados em 2009 e mesmo à média mundial. "Investidores retomaram seu apetite pelos mercados emergentes", aponta o BIS. Segundo o documento, entre fevereiro e o fim do mês passado, o índice MSCI das bolsas de mercados emergentes aumentou em 38%, superando a média mundial em 15 pontos porcentuais. No mercado de créditos, os emergentes também superam as economias maduras. "Ao final de maio, os spreads soberanos para muitos dos mercados emergentes já tinham caído para níveis próximos aos observados antes ao colapso do Lehman Brothers", disse o BIS. O banco admite, porém, que poucos foram os que conseguiram já uma queda para níveis pré-crise em seus papéis de cinco anos, entre eles Malásia, Filipinas, Turquia e Tailândia. LESTE EUROPEUNas bolsas, a maior recuperação veio do Leste Europeu. A região viu as ações em alta de 58% entre fevereiro e maio. Na Ásia, a alta foi de 43%, contra 32% na América Latina. A média de alta nas bolsas de países industrializados foi de 25%. No Leste Europeu, a pressão sobre as moedas foi relaxada e os spreads de seus créditos também diminuíram. Para o BIS, isso é resultado direto do compromisso da União Europeia em ajudar as economias da região. Os investidores também teriam ganhado confiança diante das medidas anunciadas pelo G-20 em abril para aumentar os recursos do Fundo Monetário Internacional (FMI) para ajudar países que pudessem necessitar ajuda. Menos de um mês depois da criação de mecanismos para salvar essas economias, Colômbia, México e Polônia já haviam obtido US$ 77 bilhões em linhas de crédito. Além da ajuda de instituições multilaterais, os mercados emergentes fortaleceram seus mecanismos de seguro e acordos para o uso de moedas locais para o comércio internacional. Esse foi o caso de acordos entre China e Argentina. Nem a gripe suína tirou a atração dos mercados emergentes. Segundo o BIS, "a resistência dos mercados emergentes também foi demonstrada pelo impacto limitado do surto do vírus H1N1". No México, epicentro do surto, a queda de sua bolsa de 5% e a desvalorização do peso em abril foram "transitórios". "Em 4 de maio, tanto a bolsa mexicana como o peso tinham se recuperado a níveis anteriores ao surto", constata o BIS. Diante do apetite de investidores, as emissões de papéis da dívida de emergentes voltaram a crescer e vários governos voltaram a buscar financiamento no mercado internacional. Mas as emissões por parte de empresas dos mercados emergentes ainda estão fracas.

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