Crise obriga EUA e China a buscar opções

Grandes consumidores tentam reduzir dependência do petróleo árabe; chineses investem na África e na América Latina e americanos vão pesquisar no Ártico

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Nos Estados Unidos, a crise reforçou o discurso de autonomia na produção de petróleo ou, pelo menos, a mudança na base das importações. Porém, a região mais dependente do petróleo árabe é a Ásia.

No Japão, o governo deixou claro que a recuperação de sua economia poderia ser afetada pelos preços do barril. O país importa 90% de seu combustível do Oriente Médio. Um terço vem da Arábia Saudita. "Somos dependentes do petróleo do Oriente Médio", admitiu o primeiro-ministro Naoto Kan.

Em Pequim, o governo sabe que sua dependência do petróleo estrangeiro vai aumentar. Hoje, 65% do combustível vem de fora. Em 2020, chegará a 70%. Em 2010, o país se transformou no segundo maior consumidor e terceiro maior importador do planeta. Para a China, Coreia do Sul e outros países da região, o abastecimento é o principal desafio para garantir que o crescimento seja mantido nos próximos anos.

A meta da China é diversificar ao máximo seu abastecimento. Na África, o país se lançou em projetos bilionários em Angola, Sudão, Nigéria e outros países. Pequim também passou a desenvolver nova relação com a Rússia para a importação de gás e até com Mianmar, que tem superávit de energia. Na América Latina, investimentos no pré-sal, na Venezuela e na Bolívia já chegam a mais de US$ 15 bilhões.

Durante sua campanha eleitoral, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou que uma de suas metas era acabar com a dependência do país em relação ao petróleo árabe no prazo de dez anos. Para especialistas, a tarefa não será fácil em um país que consome 21 milhões de barris por dia, 20 vezes o que produzia a Líbia.

Para atingir o objetivo, Obama propõe 1 milhão de carros híbridos pelas ruas até 2015 e investimentos de US$ 150 bilhões em energia limpa. Mas um dos principais pilares é a busca de novas fontes de petróleo, inclusive no próprio território americano. O desafio é grande. A projeção do governo é de que, até 2035, a dependência do petróleo estrangeiro cairá apenas dos atuais 51% para 45%, mesmo com a expansão do etanol e outras tecnologias.

Hoje, 17% do petróleo consumido nos EUA vem do Oriente Médio e outros 22%, da África. Quase imediatamente às turbulências nos países árabes, o lobby na Comissão de Recursos Naturais do Senado começou a pressionar por uma produção maior em território americano. "A turbulência no Oriente Médio pode levar o preço a explodir", disse o senador Jeff Landry, que pediu estudos sobre a viabilidade de uma maior produção.

Segundo o Instituto Americano do Petróleo, o país teria 116 bilhões de barris em suas terras, suficiente para abastecer 65 milhões de carros por 60 anos. Há quem diga que o volume é maior.

A busca por novas fontes já começou, entre elas o Ártico, considerado "a Arábia Saudita do futuro". O pré-sal, no Brasil, também entra nos cálculos do governo americano como opção, mas de médio a longo prazos.

Uma opção mais imediata é intensificar a relação com o Canadá. A ideia de um gasoduto de 3,2 mil quilômetros para trazer combustível do país vizinho pode finalmente sair do papel. Sozinho, o duto garantiria 500 mil barris por dia. Não foi por acaso que, em plena crise, o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, se reuniu com Obama e disse que os Estados Unidos tinham a "opção" de aceitar um acordo com o Canadá.

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