Crise paralisa obras de fábrica de fertilizantes de R$ 3,9 bilhões

Crise paralisa obras de fábrica de fertilizantes de R$ 3,9 bilhões

Consórcio formado para construir fábrica da Petrobrás demite 3,5 mil operáriosem Três Lagoas, MS

CHICO SIQUEIRA, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2014 | 02h03

TRÊS LAGOAS,  MATO GROSSO DO SUL - As obras de construção da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3, da Petrobrás, em Três Lagoas, Mato Grosso do Sul - orçadas em R$ 3,9 bilhões, uma das maiores fábricas de fertilizantes do mundo - foram paralisadas com a demissão de 3,5 mil operários entre outubro e novembro. Os últimos 650 deles foram demitidos nesta semana pelo consórcio UFN3, formado pela Sinopec Petroleum Brasil, de capital chinês, e Galvão Engenharia. A GDK deixou o consórcio e entrou em recuperação judicial.

As demissões são frutos do descontrole administrativo da obra. "Já houve época de o canteiro estar com 6 mil operários. Mas agora a situação está crítica por lá. Eles demitiram 3,5 mil operários desde outubro e não sabemos quantos há ainda no canteiro. Eles não informam nada para nós", disse o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil de Três Lagoas, Aldenísio Santos Sales.

As demissões ocorreram por falta de materiais porque o consórcio está praticamente insolvente, sem recursos para quitar dívidas superiores a R$ 90 milhões, sendo R$ 9 milhões somente para pequenos fornecedores de Três Lagoas e região. A crise fez com que fornecedores e prestadores de serviços entrassem com dezenas de pedidos de insolvência, falência e de execuções no fórum da Justiça Federal da comarca local.

Levantamento feito pela reportagem no cartório de protesto mostrou centenas de títulos protestados num total de R$ 35 milhões para cerca de 130 credores, que cobram dívidas que vão de R$ 250 - como a da Revcal Serviços - a R$ 1.058, da Alpha Materiais Elétricos.

A fábrica - que deve duplicar a produção de ureia no País, ofertando ao mercado 1,2 milhão de toneladas/ano de ureia e 81 mil toneladas de amônia - deveria ter sido entregue em setembro, mas os constantes atrasos das obras e descontrole de gestão atrasaram o cronograma para junho de 2015. A situação se agravou em abril deste ano, quando uma crise se estabeleceu em Três Lagoas, com fechamento de dezenas de pequenas empresas locais e regionais que dependiam dos recursos da obra. Grandes empresas se retiraram - a Localiza, por exemplo, retomou cerca de 100 veículos alugados a funcionários.

Para evitar uma crise e a total paralisação da obra antes das eleições, a Petrobrás interveio, pagou a maioria dos fornecedores e colocou um diretor para pagar os credores. Para garantir a continuidade dos serviços, a estatal passou a adiantar medições com garantias da seguradora do consórcio.

Empresários ouvidos durante dois meses pela reportagem estimam que a Petrobrás tenha adiantado mais de R$ 700 milhões em medições para manter a obra em andamento. Mas, após as eleições, os adiantamentos cessaram e o consórcio teve de demitir funcionários, porque os fornecedores, sem receber, deixaram de entregar materiais para conclusão das obras.

Outro lado. O consórcio UFN3 não quis comentar o assunto, embora na quarta-feira um dos seus representantes tenha dito, durante reunião com representantes da Associação Comercial e Industrial de Três Lagoas, que o grupo pretende retomar a obra em janeiro de 2015.

Em nota, a Petrobrás informou que o contrato com o consórcio "se encontra em desvio de prazo em relação ao cronograma planejado", motivo pelo qual a companhia "busca soluções junto ao consórcio para dar continuidade às obras".

Segundo a nota, as demissões de funcionários, dívidas com fornecedores e ações judiciais "são questões internas do consórcio, não cabendo à Petrobrás se manifestar". A estatal diz que haveria ainda 2,5 mil trabalhadores na obra, mas não foi o que se viu nesta semana, quando no máximo algumas centenas de operários trabalhavam no canteiro.

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