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A jornalista Adriana Fernandes mediou o debate com os economistas Silvas Matos, José Júlio Senna e Armando Castelar.  Reprodução/YouTube

Crise política ameaça crescimento de 2022, dizem pesquisadores da FGV

O Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) projeta avanço de 1,5% na atividade no ano que vem, ante 4,9% em 2021; desempenho da economia foi discutido em seminário online organizado pelo Ibre/FGV em parceria com o 'Estadão'

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 15h07

RIO - A “normalização” das atividades, conforme avança a vacinação contra covid-19, garantirá o crescimento econômico deste ano, mas os problemas, agravados pela elevação de tom da crise política, ficará para 2022, dizem pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV)

O instituto projeta crescimento de 1,5% no Produto Interno Bruto (PIB) de 2022, ante 4,9% este ano, mas o risco é o desempenho da economia ser ainda pior. Para Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do Ibre/FGV, o agravamento da crise política após as manifestações do 7 de Setembro antecipou de vez o debate eleitoral.

Segundo a economista Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre, a “normalização” das atividades em função da vacinação fará a economia apresentar, no terceiro trimestre, desempenho parecido com o do segundo trimestre, com avanço do setor de serviços e recuos na indústria e na agropecuária. A reabertura garante um “crescimento automático” em 2021 porque a simples “normalização” já levará o ritmo da atividade a ficar acima do visto em 2020, por causa da pandemia.

 

Mesmo assim, há riscos de curto prazo. A crise hídrica, que sinaliza para problemas na geração de energia elétrica, traz um “desafio ainda maior” para a indústria, já afetada pela escassez e pelo encarecimento de componentes, por causa da pandemia, segundo Silvia Matos. Por enquanto, o estresse na geração de energia cria mais um “desafio de custos” para a indústria, mas o quadro pode piorar se houver racionamento.

“(A falta de eletricidade) Não é o cenário-base, mas o risco existe”, afirmou a pesquisadora, durante o III Seminário de Análise Conjuntural de 2021, promovido em transmissão via internet pelo Ibre/FGV em parceria com o Estadão.

Ainda que os impactos da crise hídrica sejam piores do que o esperado, eles deverão ser mais sentidos em 2022. Esse quadro, combinado à crise política, ameaça até mesmo o crescimento de 1,5% projetado para o ano que vem. Diante das turbulências políticas, “o cenário atual pode levar a crescimento abaixo de 1,0%”, de acordo com Silvia Matos.

“Já tinha visão bem negativa em relação a um ano de eleição (2022), mas, infelizmente, não tinha colocado na conta um cenário tão dramático”, afirmou a economista, referindo-se à escalada da crise após discursos do presidente Jair Bolsonaro em protestos no 7 de Setembro.

Para Castelar, que também participou do seminário, diante das manifestações do 7 de Setembro e dos discursos do presidente Jair Bolsonaro nos atos, o avanço da vacinação e o controle da pandemia deixaram de ditar o ritmo do cenário econômico. O debate sobre as eleições gerais de 2022 foi definitivamente antecipado. Assim, o cenário econômico passa a ser ditado pelo quadro de 2023 em diante, ou seja, pelo programa do próximo governo.

É um quadro parecido com a crise política causada pela revelação de gravações de uma conversa do ex-presidente Michel Temer com os donos do frigorífico JBS, em 2017. A revelação, que quase levou Temer a renunciar e fez o então presidente enfrentar a votação, no Congresso Nacional, de um pedido de autorização para abrir investigação, tirou o foco das expectativas econômicas do andamento de reformas e jogou para as eleições de 2018.

Castelar vê problemas na antecipação do debate eleitoral. Um deles é que é muito cedo para começar esse debate. “É muito tempo antes (da eleição). O eleitor não está pensando em eleição, então, é muito difícil prever (o resultado)”, disse o pesquisador.

Além disso, o desenho atual do debate eleitoral traz “uma incerteza muito grande” sobre os rumos da economia de 2023 em diante. Embora a eventual viabilização de um candidato de “terceira via que anime o mercado” possa melhorar as perspectivas, os dois principais candidatos colocados para 2022, o presidente Bolsonaro, que pode pleitear a reeleição, e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “não têm compromisso forte com a disciplina fiscal”.

“O ator principal agora é o atual presidente (Bolsonaro), mas o fato de o líder das pesquisas ser um candidato (Lula) contra a âncora fiscal, contra o teto (de gastos públicos, que limita as despesas do Orçamento federal ao valor do ano anterior, corrigido apenas pela inflação), também conta”, afirmou Castelar.

Para piorar, o pesquisador acredita que, diante das demonstrações de apoio a Bolsonaro nos atos de 7 de Setembro, o ambiente político poderá continuar “tumultuado” mesmo após as eleições de 2022. Em outras palavras, o próximo governo federal também poderá enfrentar crises políticas.

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Inflação está alta no mundo todo, mas aqui é mais difícil de ser combatida, dizem economistas da FGV

Aumento dos preços, agravado no Brasil por crise hídrica e alta do dólar, foi discutido em seminário online organizado pelo Ibre/FGV em parceria com o 'Estadão'

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2021 | 14h32

RIO - A aceleração da inflação, que se aproxima dos 10% no acumulado em 12 meses, tem origens num fenômeno global, associado à pandemia, mas é agravada por problemas nacionais, como a estiagem - que encarece a conta de luz - e a alta do dólar, causada pela crise política - que encarece importados e os combustíveis, afirmam pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV)

Para enfrentar o problema, seria necessária a ação coordenada de todo o governo e não apenas do Banco Central (BC), criticaram os especialistas, que participaram, nesta quinta-feira, 9, de seminário online, organizado em parceria com o Estadão.

Segundo José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Ibre/FGV, inflação elevada é um fenômeno “novo e raro”, que ocorre no mundo todo, em decorrência da covid-19. “O que a pandemia fez? Inibiu a produção e a distribuição de bens, os gargalos de oferta apareceram, e produziu o desvio de demanda de certos serviços para certos bens”, afirmou Senna, durante o III Seminário de Análise Conjuntural de 2021.

 

 

Pelo lado da oferta, as medidas para conter a pandemia atrapalharam a produção. Fábricas fechadas no início de 2020, o sistema de frete marítimo desorganizado e as paradas de produção causaram, com efeito cascata, escassez e encarecimento de componentes. Pelo lado da demanda, as famílias deixaram de gastar com serviços (por causa da covid-19) e passaram a gastar com bens, num movimento turbinado pelas políticas de transferência de renda adotadas por diversos países. A combinação de oferta restrita com demanda elevada resulta em elevação de preços.

Na visão de Senna, “ninguém sabe” até quando esse fenômeno seguirá. “Não há registro, no mundo, de analistas ou empresários que entendam que esse fenômeno vai passar na próxima quinta-feira. É algo que demora, vamos entrar em 2022”, completou o pesquisador.

No Brasil, a aceleração da inflação é agravada por dois fatores locais. Um é a estiagem, que levou o nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas às mínimas históricas, ameaça a capacidade de geração de energia elétrica e provoca o encarecimento das contas de luz - por causa do acionamento das usinas térmicas, cujo custo de geração é maior. O outro fator é o câmbio, já que a alta do dólar, puxada por incertezas políticas, gera reajustes de preços de bens e componentes importados.

“O processo tem, no fundo, a mesma origem de outros lugares, mas aqui é mais complicado e muito mais difícil de ser combatido”, afirmou Senna.

O problema aí é que, no Brasil, o combate da inflação não depende apenas da ação do BC, mas, sim, da condução da política econômica como um todo. Sinais de desequilíbrios das contas públicas, declarações recentes do presidente Jair Bolsonaro e o próprio rumo das propostas econômicas do governo no Congresso Nacional tornam “muito difícil” a tarefa do BC de controlar a inflação, afirmou Senna.

“Se passar a reforma do Imposto de Renda (IR) com queda de arrecadação já no ano que vem, o câmbio vai a R$ 6 de novo”, completou Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro Ibre, também participante do seminário online.

Para Armando Castelar, coordenador da área de Economia Aplicada do instituto, para além da falta de ajuda da política econômica como um todo, o BC falha ao “ficar a reboque” no combate da inflação. Ele diz que o BC demorou a reagir, com elevação de juros e comunicados ao mercado. Segundo Castelar, o Banco Central subestimou as projeções de inflação em suas estimativas públicas e minimizou o desequilíbrio fiscal em sua comunicação.

No fim de agosto, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, fez um discurso mais alinhado com o governo, argumentando que os números atuais não mostram deterioração do cenário fiscal, repetindo que há diferença entre percepção com ruídos e realidade.

“O BC não vai controlar as expectativas (de inflação) se continuar a reboque. Mesmo nas mensagens sobre o (equilíbrio) fiscal, ele está atrasado. Estar a reboque dos fatos não ajuda. O BC precisa assumir o controle desse processo”, afirmou Castelar.

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