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Crise política derruba previsão do PIB

Dados do terceiro trimestre mostram que indicadores estão piores do que o esperado e recessão pode ser mais longa que o previsto

Maria Regina Silva, Francisco Carlos de Assis, O Estado de S. Paulo

17 de outubro de 2015 | 18h00

A crise política está acelerando a deterioração das expectativas de mercado para a atividade econômica. Se alguém tinha alguma esperança de que o terceiro trimestre pudesse mostrar números um pouco menos sombrios para a economia, indicadores já divulgados reforçam a percepção de que a recessão pode se alongar por um período maior que o previsto.

As dúvidas em relação à aprovação das medidas de ajuste fiscal permanecem, deixando empresários e consumidores ainda mais cautelosos em relação ao País, o que já contamina as expectativas para o Produto Interno Bruto (PIB) de 2016, conforme os economistas.

Mas os efeitos negativos sobre a economia não se restringem apenas à seara política. Somam-se a eles os prejuízos decorrentes da perda do selo de bom pagador do Brasil pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P).

Essa conjugação é que corrobora a expectativa de que a atual recessão seja a terceira maior dos últimos 50 anos, segundo análise da GO Associados feita pelo economista Alexandre Andrade.

Ele lembra o tombo de 4,25% da economia brasileira em 1962 e de 4,35% em 1990. Em virtude do desempenho da economia no terceiro trimestre deste ano, bem como das incertezas nos ambientes político e econômico, a consultoria alterou as projeções para o PIB à frente.

A previsão da GO Associados para o PIB do terceiro trimestre deste ano mudou de um recuo de 1% para retração de 1,2%, na comparação com o trimestre anterior. Para o último trimestre do ano, a expectativa da consultoria foi alterada de retração de 0,7% para declínio de 1,1%. Para 2015 e 2016, as projeções – todas de queda – saíram de 2,7% para 3% e de 0,8% para 1,3%, respectivamente.

Segundo Andrade, as informações mais recentes do mercado de trabalho, do varejo e da produção industrial indicam resultados ainda mais desfavoráveis em julho e agosto do que no início do ano. Para ele, enquanto o cenário político não melhorar, a economia vai ficar “a reboque” da crise.

Após a divulgação dos dados do Banco Central, o economista-chefe da Kinea Investimentos, Luis Fernando Horta, diz que elevou sua projeção de baixa do PIB do terceiro trimestre de 0,8% para 1,2% e ainda a previsão para o PIB de 2015, de declínio de 3% para 3,1%: “Mais importante, o PIB de 2016 foi revisado de queda de 0,9% para recuo de 1,1%”.

Inibição. Apesar de os indicadores de atividade já estarem em níveis recordes de baixa, o Bank of America (BofA) Merrill Lynch avalia que os dados estão surpreendendo para baixo, inibindo a retomada da confiança e acrescentando risco significativo para a previsão do banco de queda de 1,4% do PIB em 2016.

Segundo o banco, a persistente baixa nos níveis de confiança, o aumento do endividamento das famílias e o aperto nas condições de crédito em meio à alta dos juros, além da deterioração mais rápida do que a esperada no mercado de trabalho, indicam que a contração deve continuar no curto prazo.

O BofA Merrill Lynch tem em seu cenário um início de retomada gradual da economia no segundo trimestre do ano que vem. “Essa recuperação pode ser mais longe”, pondera, em relatório, a equipe econômica do banco. Conforme o BofA, uma retomada da atividade econômica é estritamente dependente de uma inflexão nos níveis de confiança, o que, segundo o banco, não deve ocorrer no curto prazo, dadas as incertezas políticas. “O ponto de virada continua dependente de uma solução política, que tem sido um desafio para o governo”, avalia. A expectativa do BofA é de declínio de 3,3% do PIB em 2015.

Chefe do Departamento Econômico da XP Investimentos, a economista Zeina Latif avalia que o fator político é bastante deletério, mas a perda do grau de investimento aprofundou a crise: “Jamais deveriam ter deixado o Brasil perder o grau de investimento”.

Zeina diz estar preocupada com a possibilidade de o Brasil enfrentar um problema de solvência porque a falta do grau de investimento bate no setor financeiro, represa o crédito e eleva a inflação, dificultando ao BC reduzir juros. “E com juro alto não há investimento. E sem investimento não há crescimento e criação de emprego.”

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