Marcos Müller
Marcos Müller

Crise política e a economia

O que esperar da economia cuja crise tem uma perna mergulhada na própria crise política?

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

13 Julho 2017 | 21h00

Michel Temer cuida de sua sobrevivência como presidente da República. Joga todas as suas fichas na proposta de que a Câmara dos Deputados rejeite autorização para que seja julgado pelo Supremo e, nas condições de réu, obrigado a se afastar da Presidência.

Enquanto isso, o ex-presidente Lula procura reverter o jogo. Conta com que sua condenação em primeira instância pelo juiz Sérgio Moro não seja ratificada em segunda instância e ele consiga concorrer às eleições de 2018.

Essas são apenas duas respostas para a avalanche de acusações que recaem sobre os principais políticos do País. São desdobramentos da crise política que tomou corpo com o impeachment da então presidente Dilma Rousseff. Quem acha que sabe como isso vai acabar, ou está enganando ou está sendo enganado.

Não obstante isso, o que esperar da economia cuja crise tem uma perna mergulhada na própria crise política, na medida em que tem a ver com a deterioração das contas públicas promovida pelo governo Dilma, pela sua nova matriz macroeconômica e por suas pedaladas?

O que hoje vem sendo identificado como descolamento entre economia e política só está sendo possível porque já ninguém mais admite mudanças de orientação na política econômica hoje adotada. Temer poderia ser substituído por Rodrigo Maia ou por outro na Presidência da República, mas já não se esperam reviravoltas na economia. Dita a mesma coisa de outra maneira: a crise econômica imediatamente se reinstalaria se aumentasse a probabilidade da volta das coisas esquisitas que prevaleceram no período Dilma.

Nesse sentido, pode-se falar de pelo menos três mudanças de mentalidade. A primeira tem a ver com responsabilidade fiscal. O que antes era visto como ranhetice ortodoxa, agora é percebido como exigência técnica, sem o que não é possível governar. Desordem das contas públicas não produz apenas consequências legais e contábeis, que os administradores à moda antiga sempre achavam contornáveis pela manipulação de cordéis políticos. Ela desarruma tudo e sabota qualquer tentativa de exercitar a própria política. Quem disso duvidar que olhe para a cara desolada do governador Pezão, do Rio de Janeiro.

Outra mudança de mentalidade tem a ver com a inflação e com a política monetária. Ainda há empresários e certos defensores de alguma heterodoxia que exigem a derrubada imediata dos juros, como melhor maneira de sair da recessão, sem olhar também para a inflação e sua trajetória. Mas, depois das lambanças produzidas pela presidente Dilma e, principalmente, depois dos resultados alcançados pela política confiável conduzida pela atual administração do Banco Central, já ninguém mais quer o afundamento artificial dos juros. Pode discutir se a atual dosagem de redução da Selic está adequada ou não, mas não admite aventuras.

O terceiro ponto é o câmbio. Muitas lideranças da indústria ainda se insurgem contra o que entendem como excessiva valorização do real. Mas, também, aí não cabem mágicas. Se fosse para desvalorizar o real a qualquer custo, nada seria melhor do que uma nova crise e uma corrida ao câmbio. Portanto, desvalorização do real não é necessariamente sinal de saúde. Relativa estabilidade no câmbio é mais importante do que um câmbio artificialmente desvalorizado.

CONFIRA:

» Estabilização nos serviços

O setor de serviços dá sinais de estabilidade. Não há ainda franca recuperação; apenas parou de piorar, apesar do desemprego, do alto nível de endividamento das famílias e da recomposição mais baixa dos salários. Os números mais recentes são de maio, mas um punhado de novos indícios já nos dá conta de que os próximos meses também apontam para isso. O fator que provavelmente mais vem contribuindo para essa estabilização é a queda da inflação, que impede retração maior da renda.

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