'Crise política e China podem dar fôlego extra ao câmbio'

O economista José Júlio Senna teme que os problemas políticos e a baixa da economia chinesa possam impulsionar a alta do dólar

Entrevista com

José Júlio Senna, economista e chefe do Centro de Estudos Monetários do IBRE/FGV

Renée Pereira , O Estado de S.Paulo

27 de agosto de 2015 | 02h02

O economista José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), teme que os problemas políticos e algumas interpretações equivocadas em relação à China deem fôlego extra à alta do dólar. Segundo ele, a probabilidade de esses dois fatores continuarem pressionando o câmbio é maior do que a de arrefecimento. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O dólar fechou em R$ 3,60 nesta quarta-feira, 26. Até onde vai essa cotação?

Se o impasse no campo político se acirrar, se as disputas ficarem mais distantes de encontrar um denominador comum, algo que satisfaça várias correntes políticas, continuaremos com o risco de depreciação do câmbio ganhar fôlego extra. Não estou prevendo um acirramento das dificuldades políticas, mas esse risco existe. Além disso, nas últimas semanas surgiu um novo fenômeno, que é a China, e o mau humor dos investidores com os países emergentes. Nesse item, há uma série de interpretações equivocadas e premissas falsas, mas que lamentavelmente estão pressionando o câmbio. Isso deu um gás adicional para o risco País e para a depreciação do real.

Que interpretações são essas?

Quando o assunto é China, o mais importante é saber separar o que é mito de realidade. Tudo na China é conduzido de forma muito opaca, sem transparência. A desaceleração econômica é uma realidade desde 2010, e tem a ver com produtividade e mão de obra. Isso significa menor demanda por commodities e pelos produtos exportáveis pelo Brasil. Mas há alguns mitos. A China introduziu recentemente um novo mecanismo para dar flexibilidade à taxa de câmbio. Ao fazer isso, o mercado interpretou que a preocupação da China com crescimento econômico é tão grande que estão levando eles a mudar a política de câmbio para poder exportar mais. Mas, se olharem os últimos anos, o crescimento das exportações chinesas não tem ajudado a economia. A contribuição das exportações no PIB é praticamente zero. É só um mito.

A alta do dólar no Brasil também está relacionada a isso?

Parte do que vemos no câmbio brasileiro hoje tem a ver com essas interpretações equivocadas relacionadas à economia chinesa. Outro equívoco é achar que a queda na bolsa da China terá um efeito semelhante ao do mundo ocidental, que é o efeito riqueza. Nos Estados Unidos e Reino Unido, as famílias detêm parte de suas riquezas em ações. Quando as ações caem, as famílias se sentem mais pobres e gastam menos. Se sobem, gastam mais e a economia vai para frente. Esse efeito não tem a mesma dimensão na China. Exemplo disso é que, nos últimos anos, a bolsa subiu no mesmo momento em que economia estava em desaceleração. O efeito riqueza não existe. Mas a interpretação do mercado é que a queda da bolsa chinesa fará a economia desacelerar ainda mais. Isso fará com que eles comprem menos commodities e o Brasil vai apanhar mais do que está apanhando, o risco País vai subir e haverá uma depreciação cambial adicional. A desaceleração da China vai ocorrer e teremos de conviver com ela. O que se viu nas últimas semanas foram expectativas formadas em cima de raciocínios equivocados.

Quais os reflexos desse dólar na economia?

É preciso muito cuidado com a taxa de câmbio. As empresas e famílias precisam estar preparadas com o aumento do dólar e para não se endividar em moeda estrangeira. Em termos de inflação, as estimativas mais recentes indicam que o grau de repasse caiu de 6% para 2%, mas isso é por um fator preocupante que é o desemprego na economia. O impacto sobre a inflação é menor porque a economia está em frangalhos, com um grau de capacidade ociosa muito expressiva.

Além de China, há outro fator que pode ajudar a pressionar o câmbio ainda mais?

De julho para cá, o padrão de comportamento do câmbio que vimos em 2014 e no primeiro trimestre de 2015 se rompeu. Em meados de julho, o presidente da Câmara (Eduardo Cunha) rompeu com o governo. O mercado não gostou, o prêmio de risco subiu e o câmbio seguiu na esteira dessa piora. Na semana seguinte, o Ministério da Fazenda e o Ministério do Planejamento anunciaram a revisão das metas fiscais e o mercado também recebeu muito mal isso. Houve ainda a decisão da Standard and Poor's (S&P) de colocar o rating do Brasil em perspectiva negativa. Um somatório de fatores de origem doméstica que puxaram o prêmio de risco para cima e levaram o real a se depreciar significativamente.

E como era antes?

O risco e o câmbio no Brasil seguiam um comportamento da moeda americana contra uma cesta de moedas. Houve um descolamento. Agora, a piora do real passou a ser um fenômeno doméstico que tem a ver com as complicações do País, com piora dos resultados fiscais e impasse político.

 

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