Crise provoca fuga de capitais da Argentina

Incerteza sobre a política econômica leva argentinos a comprar dólar e aplicar em bancos do Uruguai

Ariel Palacios, O Estadao de S.Paulo

19 de junho de 2009 | 00h00

No meio das incertezas sobre a política econômica do governo da presidente Cristina Kirchner - que corre o risco de perder a maioria no Congresso Nacional nas eleições parlamentares do dia 28 - os argentinos apostam no dólar como refúgio para suas economias. A fuga de divisas que tomou conta do país há quase dois anos está se acelerando. Um dos pontos da fuga de dinheiro é o Uruguai, refúgio financeiro dos argentinos há quatro décadas.Segundo dados do Banco Central uruguaio, a entrada de fundos argentinos no país dobrou em maio em relação a abril. No mês passado, os argentinos depositaram nos bancos uruguaios ao redor de US$ 55 milhões. Desde janeiro, o total soma US$ 200 milhões.A estimativa é que desde maio do ano passado os argentinos depositaram no sistema financeiro uruguaio mais de US$ 670 milhões. Ao redor de 90% dos depósitos de estrangeiros no Uruguai pertencem a argentinos, muitos dos quais são pequenos comerciantes e profissionais liberais, que atravessam o rio da Prata para depositar suas economias nas filiais bancárias na cidade de Colonia, a uma hora em ferryboat de Buenos Aires.Os argentinos preferem depositar o dinheiro no Uruguai apesar dos baixos juros nas aplicações do outro lado da fronteira, de 0,5% a 1%, do que deixar suas economias no país. Os analistas sustentam que motivos para resignar-se com o baixo rendimento há de sobra, já que a Argentina passou por vários confiscos bancários - os últimos deles, o corralito, em dezembro de 2001, e o corralón, em janeiro de 2002 -, e falências repentinas de entidades bancárias. Desde julho de 2007 a Argentina sofreu uma fuga de US$ 40 bilhões.DOLARIZAÇÃODo total de dólares comprados na Argentina, apenas 23% são depositados em contas em bancos no país. O cálculo é da consultoria Econométrica, que também indicou que, por temor a uma desvalorização do peso, desde janeiro os depósitos em dólares cresceram em US$ 2,1 bilhões.O movimento indica crescente dolarização das economias dos argentinos. O total dos depósitos em moeda americana é de US$ 11,6 bilhões, um aumento de 41% em comparação com o volume existente em junho do ano passado. Relatório elaborado pela consultoria Kleiman Sygnos GfK indicou que nos últimos seis meses os argentinos realizaram cortes de consumo para enfrentar a crise. Segundo a pesquisa realizada nas principais cidades argentinas, 37% das pessoas entrevistadas admitiram que deixaram de frequentar restaurantes e bares e passaram a preparar comidas em casa.Além disso, do total de pessoas que haviam originalmente planejado sair de férias, 24% decidiram permanecer em casa.O relatório também indica que 85% afirmam que o país está em crise. Além disso, 32% temem perder o emprego.

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