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Crise provoca fuga de mão de obra da zona do euro

Fluxo migratório mundial, que por muito tempo se deu em direção à Europa, tende a se inverter; europeus buscam trabalho nas ex-colônias e Alemanha

Daniela Milanese, correspondente,

16 de abril de 2012 | 14h32

LONDRES - Os países mais fragilizados da zona do euro enfrentam severa fuga de mão de obra. Grécia, Portugal, Irlanda e Espanha estão perdendo trabalhadores para outros mercados em razão da grave crise de dívida soberana, o que traz mais riscos para as economias no longo prazo.

Há dificuldades em levantar números oficiais, mas a emigração já é um tema tratado abertamente pelos políticos do bloco. Trata-se de uma inversão relevante trazida pela fragilidade econômica, pois a Europa atraiu durante muitos anos imigrantes do mundo todo.

Especialistas consultados pela Agência Estado apontam que a tendência é mais forte entre a população jovem, exatamente a mais afetada pelos elevados índices de desemprego. Em toda a zona do euro, o desempenho bateu recorde de 10,8% em fevereiro, mas o número é muito maior, de 21,6%, entre as pessoas com menos de 25 anos. Na Espanha e na Grécia, metade dos jovens não tem trabalho.

"Os europeus nunca pensaram que poderiam ter uma fuga de cérebros, sempre se preocuparam mais com a imigração", disse Roderick Parkes, analista do Instituto Alemão de Relações Internacionais e de Segurança (SWP, na sigla em alemão). "É uma chamada de despertar para a Europa."

A falta de esperança é evidente em Portugal, um dos países mais afetados pela turbulência. A diretora do Instituto Nacional de Administração (INA), Helena Rato, compara o movimento atual à emigração em massa registrada na década de 1960, época da ditadura de António Salazar.

Em cerca de dez anos, 1,6 milhão de portugueses deixaram o país. "Atualmente, estamos atingindo esse mesmo nível por ano", afirmou Helena, ao apontar que 150 mil pessoas saíram de Portugal em 2011. Em 2010, estima-se que 70 mil portugueses tenham emigrado. "Sem dúvida é um fenômeno relevante, pois hoje os jovens encaram uma hipótese de migrar que antes não tinham."

Thomas Liebig, especialista em migração da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), antecipou à Agência Estado que o próximo relatório da entidade sobre o tema, a ser divulgado em junho, mostrará o aumento da emigração no continente. Entretanto, ele disse que os números oficiais ainda não revelam uma saída tão expressiva quanto aponta a percepção dos europeus.

Para ele, o que se vê principalmente é a queda da imigração, pois muitos estrangeiros que viviam na Europa decidiram voltar a seus países de origem em razão da crise - o que, na prática, também significa redução da mão de obra disponível.

A Espanha, por exemplo, registrou no ano passado imigração negativa pela primeira vez em dez anos. "O movimento ocorreu principalmente porque estrangeiros ou espanhóis naturalizados decidiram ir embora", disse Liebig.

Políticos já vêm se manifestando sobre o crescimento da emigração no continente. No final do ano passado, o primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, levantou polêmica ao sugerir que os desempregados poderiam procurar oportunidades no Brasil e em Angola.

No curto prazo, a saída para outros países pode até trazer alívio, acredita Helena Rato, do Instituto Nacional de Administração (INA), porque reduz o desemprego, a pobreza e os gastos sociais do governo. "Mas no médio e longo prazo, é evidente que isso é ruim, pois o país ficará com atraso em capital humano e jogará pela janela o investimento feito nas pessoas."

Para Parkes, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e de Segurança, a emigração se tornará uma das grandes preocupações dos governos nos próximos anos. "É uma mudança cultural que leva tempo, mas deve acontecer."

De fato, por enquanto a imigração ainda funciona como um dos principais combustíveis políticos do continente. Mostra disso é que o combate à imigração ilegal é um dos temas das campanhas eleitorais na Grécia, apesar de toda a depressão econômica vivida pelo país, e na França.

Destinos de fuga

Ex-colônias, países com a proximidade da língua e a Alemanha são os destinos preferidos dos europeus que querem escapar da crise. Os portugueses rumam para o Brasil e Angola. Os espanhóis tentam a sorte na América do Sul. Os irlandeses partem sem pestanejar para a Austrália. Outra opção é aprender alemão, tendência forte no continente, para se candidatar a uma vaga na única economia intacta da Europa.

O Brasil virou um verdadeiro sonho de consumo para os portugueses. A imprensa local registra constantemente que o crescimento econômico e as perspectivas abertas principalmente para engenheiros e arquitetos tornam o País um destino óbvio para os desempregados em Portugal. Recentemente, o Diário Económico apontou: "Brasil, o destino dos novos emigrantes".

"O Brasil chegou a ter muito volume de imigração para Portugal, com uma grande comunidade aqui, mas agora acontece o contrário", afirmou Helena Rato, do Instituto Nacional de Administração (INA).

A proximidade histórica e da língua também justifica outros movimentos migratórios na Europa. O mais expressivo deles é a saída de irlandeses para a Austrália, que se beneficia do boom das commodities. Segundo a agência de estatísticas da Irlanda, a emigração somou 76,4 mil pessoas nos 12 meses até abril de 2011, uma alta de 16,9%. Dados do departamento de migração da Austrália relevam alta de quase 70% no número de vistos concedidos a irlandeses no ano passado.

A Austrália também atrai a população da Grécia, país que protagoniza a crise mais severa da zona do euro. Segundo dados levantados pelo jornal britânico The Guardian, 2,5 mil gregos migraram para a Austrália em 2011 e outros 40 mil expressaram interesse em sair do país.

Na Espanha, pela primeira vez em dez anos, o número de pessoas que saiu do país (507,7 mil) superou o total de entradas (457,6 mil) em 2011, resultando numa migração líquida negativa de 50 mil cidadãos. Há relatos de procura por oportunidades no Marrocos, Equador, Bolívia, Brasil e Argentina.

Além do movimento para outros continentes, a população dos membros mais fragilizados da zona do euro busca refúgio na Alemanha, cuja economia segue forte apesar da turbulência no bloco. "Todos os jovens com quem eu converso na Espanha estão querendo ir para Berlim, e os gregos também", afirmou Roderick Parkes.

Segundo Thomas Liebig, a Alemanha registrou aumento de imigração vinda dos membros em crise da zona do euro, embora o maior fluxo ainda seja do leste europeu.

Conforme dados da agência estatística alemã, o país recebeu 297,3 mil imigrantes europeus no primeiro semestre de 2011, alta de 25,8% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os fluxos vindos da Grécia (+84,5%), Espanha (+49%), Irlanda (+35,9%), Itália (+22,4%) e Portugal (+21,1%) deram saltos relevantes.

A Alemanha está ativamente tentando recrutar trabalhadores dos países em dificuldades, pois necessita de mão de obra qualificada. A empresa Rücker AG, na cidade de Wiesbaden, é mais uma a oferecer 400 vagas para engenheiros da Espanha, Itália e Grécia.

Os especialistas alertam, entretanto, que a língua é uma barreira relevante no caso da emigração para a Alemanha. "Tem que se preparar para o cargo porque falar somente inglês não basta, é preciso falar alemão", disse Liebig, da OCDE. "Se você não fala alemão, não vai conseguir um trabalho qualificado", concorda Parkes, do Instituto Alemão de Relações Internacionais e de Segurança.

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