Crise salva FMI da insignificância

Atuação nas políticas de ajuda a países devolve ao Fundo papel decisivo no cenário financeiro global

Jamil Chade e Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Ele estava marginalizado, sem credibilidade, duramente criticado e sem dinheiro. Mas a crise o salvou. A recessão mundial e o temor de uma quebra em série de países voltaram a pôr o Fundo Monetário Internacional (FMI) no centro do debate sobre a nova estrutura de poder internacional. Sua credibilidade ainda não foi reconquistada. Mas ao menos o Fundo deixou de ser uma relíquia.

A batalha é para definir quem terá voz e voto no futuro do sistema financeiro. Nesse contexto, o FMI ganhou papel privilegiado na disputa de poder. Um estudo interno da Organização das Nações Unidas (ONU) obtido pelo Estado aponta que o FMI já atuou em cerca de 50 países desde a eclosão da crise, há um ano. Entre eles estão Paquistão, Colômbia, México, Polônia e cerca de 30 países pobres.

Poucas vezes em sua história o trabalho dentro da entidade foi tão intenso como neste ano. A situação é uma reviravolta nas atividades do Fundo, antes acusado de aprofundar crises e de fazer exigências que teriam levado alguns países a uma maior vulnerabilidade.

"A crise deu relevância ao Fundo", diz Domenico Lombardi, pesquisador da Brookings Institution que estuda o papel do FMI e do Banco Mundial (Bird) no cenário financeiro mundial. Ele e outros especialistas acham que o Fundo acertou em suas "receitas" macroeconômicas, depois de ter errado muito nas crises da Ásia e da América Latina, nos anos 80 e 90.

"O FMI "comeu barriga" em 2007 e no início de 2008, quando já era óbvio que os EUA caminhavam para uma aterrissagem forçada", diz Desmond Lachman, pesquisador do American Enterprise Institute e ex-diretor assistente de desenvolvimento de políticas no FMI. "Mas, desde o segundo semestre de 2008, o Fundo tem acertado na mosca em suas recomendações para os países coordenarem um estímulo fiscal global, reformarem o sistema financeiro e recapitalizarem os bancos; e está de novo corretíssimo ao pedir cuidado para não fazer uma saída prematura dos planos de estímulos."

Segundo Lachmann, o Fundo se mostrou "muito mais flexível e menos dogmático" ao lidar com as crises no Leste Europeu agora do que com as crises nos anos 90. Diante da atual crise, o FMI foi obrigado a modificar várias de suas políticas. Nas intervenções, a recomendação segue sendo a de controle de gastos pelo Estado, exigência que teria aprofundado crises na América Latina e Ásia nos anos 80 e 90, segundo críticos.

O Fundo está mais flexível: aportes públicos à educação, rede de proteção social e combate à pobreza já não são mais contabilizados dentro dos limites de gastos de forma tão rígida. Aos países que não correm o risco de quebrar, o FMI avisou: os pacotes de resgate à economia não devem terminar agora e os gastos precisam continuar.

O FMI também ganhou novo aporte de capitais para cumprir sua missão. Na piora da crise, o Fundo alertou que, se tivesse de socorrer vários países, não teria verba suficiente para emprestar nem mesmo para a totalidade dos países do Leste Europeu. Seus recursos naquele momento eram de apenas US$ 200 bilhões.

Em abril, o grupo das 20 maiores economias (G-20) decidiu recapitalizar o Fundo. Os novos recursos chegariam a US$ 500 bilhões. A estimativa é de que o FMI enviaria US$ 187 bilhões a cerca de 50 países. O valor é duas vezes maior do que todo o dinheiro emprestado durante a crise asiática em 1997, além do injetado na Rússia e na Argentina em 1998.

Mas, dessa vez, a novidade foi a decisão de emergentes como Brasil, China, Índia e Rússia de também emprestar ao Fundo. O Brasil fez um aporte de US$ 10 bilhões ao Fundo em títulos emitidos pela entidade pela primeira vez. A China também anunciou empréstimo de US$ 50 bilhões, também com compra de títulos, e a Rússia vai destinar outros US$ 10 bilhões.

Trata-se de uma mudança radical em relação a poucos anos atrás. Uma das histórias que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva gosta de contar a amigos próximos é a conversa telefônica que teve com o então gerente-geral do FMI, o espanhol Rodrigo de Rato. Quando ligou para Rato para avisar que o Brasil quitaria adiantado sua dívida, se libertando das condições do Fundo, o espanhol não escondeu a surpresa. "Rato não acreditava no que ouvia", teria dito Lula a um membro do governo. O susto de Rato não teria sido motivado apenas pela atitude do Brasil, mas pelo sintoma da perda de poder do Fundo.

Para Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley que estuda o FMI, o Fundo ganhou apenas uma "trégua" em seu rumo à insignificância. "O FMI precisa se aproveitar da nova relevância que ganhou durante a crise para fazer duas reformas: agir mais como um centro global de reservas, para que países como Brasil ou China não tenham de acumular tantas reservas internacionais para tempos de vacas magras, e acabem assim contribuindo para os desequilíbrios globais; e o FMI precisa ser mais assertivo em relação aos desequilíbrios globais, um problema central."

Segundo ele, o FMI já caminha nessa direção, com a criação das Linhas de Liquidez de Curto Prazo, que oferecem recursos de emergência com poucas condicionalidades para países com políticas macroeconômicas sólidas. Mas até agora, só o México, a Colômbia e a Polônia se candidataram. E em relação ao desequilíbrio global, o FMI deveria exigir ajustes nos países de grandes déficits e superávits (EUA e China). Ele acha que está na hora de ressuscitar mais uma ideia de Keynes de 1941: a de impor multas sobre países com déficits ou superávits crônicos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.