Crise vai fazer investidor optar entre emergentes

Para estrategista de banco de investimento inglês, países com posição mais sólida levarão vantagem

Daniela Milanese, LONDRES, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2008 | 00h00

O acirramento da crise no sistema financeiro dos Estados Unidos pode provocar uma primeira reação de saída de recursos de países emergentes. Mas, num segundo momento, o investidor vai partir para a diferenciação entre os países, direcionando recursos para aqueles que têm posição mais sólida. A avaliação é do estrategista para mercados emergentes do Threadneedle Asset Management, Henry Stipp.Nos últimos dias, os problemas que começaram com a crise do mercado de hipotecas nos Estados Unidos ganharam contornos mais graves. A deterioração do cenário abateu o fundo Carlyle Capital e, na seqüência, o Bear Stearns. Para especialistas, o setor financeiro americano vai passar por uma consolidação, e há temores de que outras instituições corram risco de colapso.Hoje os rumores atingiram o mercado inglês e fizeram o HBOS, maior provedor de hipotecas do Reino Unido, vir a público para negar a existência de dificuldades. "A pergunta seguinte será: quem vai ter condições de comprar o próximo banco?", afirmou Stipp.Diante da piora do quadro, especialistas começam a apontar que os emergentes podem sofrer saída de recursos. "Num primeiro momento, todo mundo sofre", disse o estrategista ao Estado. "Mas depois esse dinheiro tem de voltar, e os investidores procurarão lugares onde se sentem mais seguros, já que hoje não encontram tranqüilidade nos Estados Unidos ou na Europa." Stipp lembra que os emergentes enfrentarão a crise atual em situação bem diferente da ocorrida no passado. A maior parte desses países não precisa de dinheiro para financiamento de dívidas - o Brasil, inclusive, hoje é credor externo líquido. Além disso, a existência de reservas externas, superávits comerciais e crescimento econômico eleva o conforto. "É claro que os emergentes não estão isolados da crise, mas os fundamentos estão bons." Na lista dos países com melhor posição atualmente, ele cita a Rússia (com reservas de US$ 500 bilhões, destaca) e vários da América Latina, como Brasil, Chile, Peru e México. Esse último, avalia, segue com fundamentos positivos mesmo diante da dependência americana. "A Bolsa do México está quase zerada neste ano, não caiu muito, e o ajuste da economia será feito pelo desaperto monetário. A América Latina está muito bem." Para Stipp, o impacto maior será sentindo por emergentes que "não fizeram toda a lição de casa" e, apesar de não terem dívidas expressivas, apresentam déficit em conta corrente entre 15% e 17% do Produto Interno Bruto (PIB). É o caso de Romênia, Bulgária e Lituânia, por exemplo. "O mercado já começa a precificar problemas nesses países", diz ele. CORTE INGLÊSO Barclays acredita que o Banco da Inglaterra (BOE) vai acelerar o processo de corte de juros. A minuta da última reunião do banco central inglês, divulgada ontem, mostrou que dois membros do comitê votaram a favor de uma redução de 0,25 ponto porcentual da taxa, atualmente em 5,25%. Segundo o Barclays, o consenso apontava que somente um representante teria opinado pelo desaperto monetário.Para o economista Simon Hayes, com a intensificação da turbulência no mercado de crédito, o BOE ganha espaço para reduzir as taxas de juros. Ele agora espera um corte de 0,25 ponto porcentual em abril, além de outros dois de mesmo tamanho em junho e agosto. Dessa forma, o juro chegaria a 4,5%. "Antes, nossa projeção era de 0,25 ponto porcentual em maio e em agosto, para 4,75%", diz, em comentário enviado aos clientes.

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