Crises financeiras regionais ameaçam economia chinesa

Capacidade do Estado de ampliar investimentos pode ser reduzida no momento em que ritmo de crescimento é o menor em 10 anos

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM , O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2012 | 03h07

A China começa a viver a ressaca do boom de investimentos, alimentado por crédito fácil dos últimos três anos, com uma sucessão de crises financeiras regionais que podem dragar empresas e bancos em um efeito dominó ou forçar o governo a lançar bilionárias boias salva-vidas aos que se afogam.

No melhor cenário, o peso das dívidas reduzirá a capacidade de o Estado ampliar investimentos no momento em que a economia desacelera para o menor ritmo em mais de uma década.

Notória pelo forte setor privado e o espírito empreendedor, a Província de Zhejiang registrou aumento de 35% nos créditos de recuperação duvidosa dos bancos no primeiro semestre de 2012, que estavam em 1,34% do total no fim de junho, o equivalente a 75,9 bilhões de yuans (R$ 24,17 bilhões).

Na cidade de Wenzhou, que já viveu uma crise financeira no ano passado, o porcentual de empréstimos podres saltou de 0,37% em junho de 2011 para 2,69% um ano mais tarde, o mais alto nível em uma década - a média nacional era de 0,9% na mesma época, cifra que muitos analistas consideram irreal.

A 2.242 km de distância, na Mongólia Interior, a cidade de Ordos também viu o rápido aumento porcentual de créditos duvidosos, que passaram de 0,7% no fim de 2011 para 2,14% em junho. O local é o exemplo máximo da extravagância que inflou a bolha imobiliária chinesa, com milhares de apartamentos vazios.

Maquiagem. Winnie Wu, analista do Bank of America Merrill Lynch, acredita que o governo está forçando os bancos estatais a não registrarem em sua contabilidade muitos dos empréstimos que azedaram. As instituições financeiras também são obrigadas a fornecer crédito ao que ela chama de "empresas zumbis", que já deveriam ter fechado as portas pela impossibilidade de sobreviverem sem ajuda oficial.

Em sua opinião, o porcentual de 0,9% de créditos irrecuperáveis é "surpreendentemente baixo", se for considerada a recente onda de devedores que não conseguiram pagar suas obrigações.

Só o conglomerado Zhongjiang Holding tem débito de 3 bilhões de yuans (R$ 355,3 milhões) com o China Construction Bank, mesmo valor que a Jade Cargo deve para o Bank of China. As duas empresas pediram falência nos últimos dois meses. O débito total do grupo Zhongjiang alcança 8 bilhões de yuans, dos quais 5 bilhões em empréstimos bancários. O presidente da holding, Yu Zhongjiang, foi preso em junho sob acusação de delitos financeiros.

Em Pequim, a empresa garantidora de crédito Zhongdan pediu falência na terça-feira, depois de se debater contra a crescente falta de liquidez desde o início do ano. A companhia garantiu financiamentos no valor de 3 bilhões de yuans, em transações que envolvem 22 bancos e 294 empresas da capital chinesa.

Antes de fugir para os Estados Unidos em fevereiro, o dono da Zhongdan, Chen Yibao, também provocou estragos na província sulista de Guangdong, que concentra a indústria manufatureira exportadora da China. Suas duas garantidoras de crédito na região, Huding e Changfu, realizaram operações fraudulentas que causaram perdas para centenas de pequenas empresas.

O caso levou à prisão de nove administradores das companhias e ao afastamento de Xie Pengfei, um alto dirigente do governo provincial suspeito de favorecimento e conivência com as transações.

"A China enfrenta uma série de crises financeiras, que estão pipocando em diferentes regiões", disse ao Estado o americano Patrick Chovanec, professor da Universidade Tsinghua.

Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, prefere a expressão "problema de dívida", provocado pela expansão do débito em velocidade maior que a capacidade de pagamento. Em sua opinião, a palavra "crise" pressupõe a possibilidade de colapso dos bancos, o que é pouco provável na China, já que o Estado deverá socorrer as instituições em dificuldades.

O próprio governo reconhece a ameaça. Em editorial publicado em sua primeira página no dia 14 de agosto, o jornal Notícias Financeiras, editado pelo Banco do Povo da China, ressaltou os riscos financeiros regionais, que são agravados pela desaceleração econômica.

O editorial previu aumento do volume de créditos de má qualidade nos balanços dos bancos e ressaltou os problemas decorrentes da queda na arrecadação das administrações provinciais, do crédito subterrâneo concedido à margem do sistema bancário e das dificuldades de caixa enfrentadas pelas construtoras em razão das medidas restritivas adotadas pelo governo para desinflar a bolha imobiliária.

"Com mudanças no ambiente externo e a desaceleração da economia doméstica, todos os potenciais riscos do setor financeiro podem ser facilmente expostos", ponderou o texto.

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