Crises são choque de realidade na Europa

Crises são choque de realidade na Europa

Cenário:

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

Quase sem alarde, a instituição pública responsável pela gestão da dívida da Grécia anunciou ter captado ontem no mercado financeiro europeu mais ? 1 bilhão em recursos para debelar a pressão causada pelas dívidas de curto prazo do país, avaliadas em cerca de ? 23 bilhões até maio. O novo aporte de recursos se soma aos ? 5 bilhões obtidos na segunda-feira e eleva a ? 19 bilhões o total já tomado emprestado em 2010.

Ignorando-se o fato de que esses recursos representam obrigações a serem saldadas na próxima década, a nova captação confirma a redução progressiva do risco de calote na Grécia. O fato é que os recursos captados por Atenas permitem duas conclusões: (1) o mercado aceitou, enfim, refinanciar o país, e (2) o pacto de financiamento de urgência entre os 27 líderes da União Europeia surtiu efeito.

Na prática, as duas conclusões indicam que o caminho está aberto para que a crise de desconfiança sobre as dívidas públicas da Europa seja controlada. O cenário é mais otimista nos maiores mercados financeiros do bloco, mesmo que o recente rebaixamento da nota de Portugal e as incertezas sobre os déficits públicos da Irlanda, da Espanha, da Itália ou do Reino Unido ainda perdurem.

Se a hora da intervenção de urgência foi superada, é chegado o momento do balanço. A Europa precisa refletir sobre as causas de seu forte tombo de 2008 e 2009, sobre suas perspectivas de baixo crescimento em 2010 e 2011 e, sobretudo, sobre o lugar que pretende ocupar em médio prazo na economia global.

Ontem, em Budapeste, na Hungria, Dominique Strauss-Kahn, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), teve seu dia de Luiz Inácio Lula da Silva ao descrever a conjuntura econômica na UE. Strauss-Khan apelou às metáforas esportivas para reiterar uma advertência que está nas mentes dos maiores acadêmicos do continente.

"O risco para as economias europeias é de que elas sejam de segunda divisão, e não de primeira, como os EUA e a Ásia", alertou. Segundo Strauss-Kahn, a UE corre o risco de ser marginalizada pela globalização. "Há uma probabilidade de que, se os europeus não agirem rapidamente, em 10 ou 20 anos a batalha seja disputada entre os EUA e a Ásia, enquanto a Europa será deixada de lado."

CORRESPONDENTE EM PARIS

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.