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Cristina Kirchner completa seis meses no poder com inflação

Como se fosse pouco, sinais de nova crise energética na Argentina surgiram com intensidade nos últimos dias

Ariel Palacios, de O Estado de S. Paulo,

08 de junho de 2008 | 17h02

A testa dos argentinos, que havia desanuviado ao longo da última meia década - período no qual a economia recuperou-se da crise de 2001-2002 e cresceu quase 9% do PIB em média por ano - está ficando franzida novamente. O entusiasmo com a recuperação da economia começa a murchar. A expectativa de uma nova crise no horizonte está inibindo os argentinos para abrir a carteira e consumir. Os lojistas vêem a clientela passar pela frente das vitrines, mas são poucos os que entram. A inflação, velho fantasma dos argentinos, disparou. E, como se fosse pouco, os sinais de uma nova crise energética surgiram com intensidade nos últimos dias.  Neste cenário, a presidente Cristina Kirchner, que na terça-feira, 10, completa seis meses no poder, tem pouco para celebrar. Desde que tomou posse esteve mergulhada em uma seqüência - sem pausas - de crises. Metade desse tempo foi tumultuado pela crise com os ruralistas, o primeiro setor econômico que ousou desafiar o poder de Cristina e de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. No entanto, apesar da gravidade da situação, segundo um levantamento realizado pelo jornal Perfil, a presidente ocupou 15% de sua agenda de trabalho com reuniões com "celebridades": atores, cantores e músicos internacionais, entre eles o galã espanhol Antonio Banderas. O conflito com os ruralistas, que se prolonga sem soluções no horizonte há três meses, levantou suspeitas entre os argentinos sobre a capacidade da presidente em lidar com as crises. A popularidade de Cristina, que, segundo a consultoria Poliarquia, era de 56% em janeiro, ao completar seu primeiro mês no cargo, atualmente é de 26%. Fim de mês Uma pesquisa da TNS Gallup e a Universidade Católica Argentina indica que seis de cada dez argentinos afirmam que, com seus atuais salários, "é impossível chegar ao fim do mês". Essa proporção supera o nível de setembro passado, quando quatro da cada dez reclamavam ds rendas mensais.  As perspectivas para o futuro próximo são crescentemente negativas. O Índice de Expectativas Econômicas que a UCA elabora mensalmente exibe uma queda de 7,4% nas expectativas positivas em relação a abril do ano passado. Simultaneamente, a confiança no governo despenca. O índice de confiança elaborado mensalmente pela Universidade Di Tella registrou em maio uma queda de 23% em relação a abril. Mas, a queda é mais abrupta ainda se comparada com maio do ano passado. Neste caso, a queda da confiança no governo é de 40%. Um dos motivos para a queda da confiança é a inflação, que o governo não consegue deter, principalmente nas províncias do interior. Dados dos organismos estatísticos oficiais provinciais indicam que em várias regiões a inflação superou a faixa de 3% em abril, proporção que quase quadruplicou o anúncio do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), que sustenta que o índice inflacionário do mês passado foi de 0,8%. O Indec, sob forte intervenção do governo desde janeiro do ano passado, é suspeito de "maquiar" o índice de inflação. Por este motivo, os índices elaborados por várias províncias, são considerados os únicos verossímeis. Sem gás A crise energética, que no ano passado deixou milhares de indústrias sem gás e energia elétrica, está voltando. No sul do país o governo enfrentou durante 31 dias um duro conflito sindical que paralisou o fornecimento de 10% da produção nacional de gás e levou à redução drástica do abastecimento de 300 indústrias nas principais cidades da Argentina. O conflito sindical só agravou um contexto complexo, já que apesar da crise energética do ano passado o governo não tomou medidas concretas para evitar uma nova escassez de gás, petróleo e eletricidade. Por este motivo, os industriais temem que a crise energética volte nas próximas semanas, já que o frio está apenas começando, fato que aumenta o consumo residencial para aquecimento. No ano passado, o racionamento foi aplicado às indústrias ao longo dos meses de junho, julho e agosto. Os consumidores residenciais foram poupados, já que o governo do então presidente Néstor Kirchner estava de olho nas decisivas eleições presidenciais de outubro. Mas, neste anos sem eleições, não existem garantias de que neste inverno as residências consigam escapar da escassez de gás. Intransigência A postura dura do governo nos conflitos com diversos setor empresariais, que nos primeiros anos do governo de Néstor Kirchner (2003-2007) era encarada com admiração como "firme", começou a ser vista com o preocupante adjetivo de "intransigente".  O próprio Kirchner - que segundo os analistas políticos e a percepção generalizada da população seria o verdadeiro poder no governo de sua esposa - radicalizou essa forma de lidar com empresários nos últimos tempos. No meio da crise com os ruralistas, Kirchner esbravejou: "não cederemos em nada!". Ele e sua esposa afirmaram que os agricultores pretendem dar "um golpe de estado". O crescente gasto público, o festival de subsídios estatais, o novo crescimento da pobreza e controvertidas licitações para bilionárias obras públicas preocupam os principais analistas econômicos e políticos. Enquanto isso, os mercados estão cada vez mais ariscos com a Argentina. Um dos sinais da crescente falta de confiança dos investidores no futuro do país é a queda dos bônus da dívida pública argentina, que desde o início do conflito com os ruralistas, em março passado, perderam 20%.

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