Cristina Kirchner proíbe que argentinos economizem em dólar

BC anuncia medidas que restringem compra da moeda; banco também tomou medidas para elevar investimentos

ARIEL PALACIOS, MARINA GUIMARÃES, CORRESPONDENTES / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2012 | 03h05

O Banco Central da Argentina (BCRA) anunciou na noite de ontem que argentinos e estrangeiros residentes no país não poderão mais usar a compra de dólares para engrossar as economias pessoais. O objetivo do governo da presidente Cristina Kirchner é forçar a população a economizar em peso, a moeda nacional.

Na prática, os argentinos estavam com grandes dificuldades para adquirir a moeda americana desde o início da cruzada anti-dólar desencadeada por Cristina Kirchner em novembro passado. Desde o dia 14 de junho, o cerco contra o dólar ficou mais intenso, com a Administração Federal de Ingressos Públicos (Afip) - a receita federal argentina - proibindo, sem explicações, a compra de dólares.

O BC anunciou que os argentinos poderão continuar a comprar dólares nos casos de viagens ao exterior. No entanto, essa operação deverá contar com a aprovação da Afip. A entidade monetária também permite a compra de dólares com o dinheiro obtido de créditos hipotecários para os casos de aquisição de imóveis (as operações imobiliárias argentinas são tradicionalmente feitas em dólar). No entanto, essas operações só poderão ser feitas até 31 de outubro. Após essa data, as transações imobiliárias deverão ser feitas em pesos argentinos.

Além dessas operações, a compra de dólares somente será possível para doações em casos de catástrofes naturais ou situações de caráter humanitário de conhecimento público.

A cruzada anti-dólar começou poucos dias após a vitória de Cristina, nas eleições presidenciais de outubro. Reeleita, ela implantou um "corralito verde", denominação irônica com a qual os portenhos batizaram as medidas de restrição contra moeda americana. Por trás das barreiras contra o dólar está a necessidade desesperada do governo argentino - assediado pelo fantasma do déficit fiscal - de impedir a saída da divisa.

A tradição argentina de resguardar as economias na moeda americana data dos anos 60. No entanto, ficou mais intensa a partir de 1975, quando a Argentina passou pelo primeiro grande ajuste econômico, "El Rodrigazo", durante o governo de Isabelita Perón.

Estímulo. Ainda ontem, o BCRA oficializou o que Cristina antecipou em discurso na quarta-feira: os 20 maiores bancos do país terão de destinar 5% de seus depósitos privados em pesos para conceder créditos a todas as empresas do país com taxas de juros mais baixas do que a inflação real. A medida atinge dois bancos brasileiros, o Patagônia, controlado pelo Banco do Brasil, e o Itaú Buen Ayre, do Itaú.

Em comunicado, o banco informou que aprovou uma nova linha de crédito para promover o investimento produtivo cujo objetivo seja a aquisição de bens de capital e a construção de instalações necessárias para a produção de bens e serviços. Essa linha deverá ser concedida pelas entidades financeiras, informou o comunicado da instituição. Segundo a nota, a nova linha chegará a cerca de US$ 3,3 bilhões para estimular o investimento das empresas que operam na Argentina.

A medida prevê que os créditos sejam desembolsados antes de 31 de dezembro, ressaltando que o prazo será prorrogado por mais seis meses para os projetos de maior complexidade.

O Banco do Brasil informou que está analisando a medida e o Itaú não se pronunciou.

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