Cristina Kirchner retoma diálogo com ruralistas

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, reuniu-se hoje com os líderes das quatro associações ruralistas para retomar o diálogo, após um prolongado e intenso conflito que abalou o país. Nos últimos 105 dias, os dois lados foram protagonistas de um confronto sem precedentes na história argentina, que provocou a realização de quatro locautes agrários e levou o país ao estancamento de diversos setores da economia, além de uma disparada da inflação. No encontro, realizado na Casa Rosada, o palácio presidencial, os ruralistas pediram a Cristina que elimine os aumentos dos impostos aplicados às exportações agrícolas, pivô do confronto. Segundo os ruralistas, ela fitou os olhos deles, sem nada responder. "O jogo está apenas começando. Ainda temos 90 minutos de duro jogo pela frente", disse - com uma analogia futebolística - Mario Llambías, presidente das Confederação Rural Argentina (CRA), uma das quatro associações que se reuniram com a presidente. Llambías referia-se à disputa que iniciou hoje no Congresso, onde é debatido o projeto de lei da presidente para implementar os controvertidos aumentos tributários sobre o setor agrícola. Os debates no Parlamento prometem ser acirrados ao longo dos próximos dias, uma vez que nenhum lado conta com a garantia de poder exibir maioria suficiente para aprovar ou rechaçar o projeto.Na semana passada, depois de três meses e meio de trocas de pressões por parte do governo e a realização de quatro locautes protagonizados pelos ruralistas, Cristina optou por resolver o impasse no âmbito parlamentar e remeteu ao Congresso um projeto de lei sobre os aumentos tributários. Mas, apesar da retomada do diálogo, as pressões do governo ao setor ruralista continuam intensas. Mais de 15 mil produtores rurais estão na lista do Fisco da província de Buenos Aires, a maior do país. Segundo as autoridades, mais de 15 mil produtores agrícolas serão intimados como "sonegadores" nos próximos dias. Outros 80 mil foram convocados pelo Fisco em maio.AcampamentoOutro sinal de pressão foi a instalação de um acampamento "kirchnerista" na frente do Congresso. As barracas dos simpatizantes da presidente - pintadas com a imagem de Evita Perón, ícone do governista Partido Peronista - pretendem acompanhar desde ali o debate sobre o projeto de lei. Com o acampamento, os "kirchneristas" pretendem dissuadir que os ruralistas instalem as próprias barracas, tal como haviam prometido na sexta-feira.O senador Gerardo Morales, líder da União Cívica Radical (UCR), um dos principais partidos da oposição, acusou o governo de "comprar" parlamentares para poder assegurar a vitória na votação sobre o projeto de lei dos aumentos tributários para as exportações agrícolas. Segundo Morales, o governo Cristina oferece subsídios para diversos setores de peso nas economias provinciais, de forma a seduzir deputados e senadores. A Província de Mendoza receberia fundos extras para o setor vinícola; a de Misiones para a produção de erva-mate e a de Jujuy para o cultivo de fumo. "É uma vergonha que o governo tente comprar o voto com presentinhos", disparou Morales.Enquanto governo e ruralistas se preparam para uma queda de braço no Parlamento, o país tenta recuperar-se dos efeitos do conflito entre ambos lados. As agências qualificadoras estão olhando o país com desconfiança e pessimismo, já que as expectativas sobre o crescimento da economia neste ano e em 2009 ficam cada vez mais sombrias. A agência Moody''s explicou que a nota positiva que havia sido colocada em janeiro do ano passado está sendo atualmente "revisada". Segundo a Moody''s, o cenário "não é tão positivo" como em 2007. Além disso, analistas da agência indicam que o problema do país "é político", e que o sistema de poder no país "tenta resolver tudo pelo confronto". "Isso é muito perigoso." Recentemente, a Standard & Poor''s modificou a perspectiva sobre a Argentina de "estável" para "negativa".

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