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Cristina 'malviniza' economia argentina

Traçando um paralelo com o ditador Leopoldo Gualtieri, analista político diz que presidente tenta esconder os reais problemas do país

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h07

A presidente Cristina Kirchner celebrou em várias ocasiões na semana passada a "recuperação da soberania energética" e a "reargentinização" da empresa petrolífera YPF, expropriada na segunda-feira. Até a manhã daquele dia, a companhia era subsidiária da espanhola Repsol. Mas, ao meio-dia, a presidente, em rede nacional de rádio e TV, anunciou a expropriação da empresa, que antes de ser privatizada, em 1992, foi a maior estatal da história do país.

O discurso da presidente - em tom épico - foi interrompido por frenéticas ovações e cânticos de seu partido, o Justicialista (Peronista), de forma similar à declaração do calote da divida dos títulos públicos com os credores privados feita pelo então presidente provisório Adolfo Rodríguez Saá, em dezembro de 2001, em meio aos aplausos de todo o Parlamento.

O analista político Rosendo Fraga disse ao Estado que a presidente Cristina está "malvinizando" a política econômica, em alusão às Ilhas Malvinas, arquipélago reivindicado pela Argentina e principal causa nacional do país. A presidente, segundo ele, está apelando ao nacionalismo para esconder os reais problemas do país, entre os quais a pobreza, a crescente criminalidade, a escalada da inflação, a queda dos investimentos estrangeiros e a fuga de divisas.

O Produto Interno Bruto (PIB), neste ano, deverá crescer 4%, muito inferior à expansão de 2011, de 9,2%, segundo cálculos da consultoria Econiews, comandada pelo ex-secretário de Finanças Miguel Kiguel. O consumo geral também acompanhará esse declínio. Segundo Guillermo Olivetto, presidente da consultoria W, passaria dos 8% de 2011 para um crescimento de somente 4% em 2012.

Nacionalismo. A medida de expropriação, que ainda requer a aprovação do Parlamento (onde a presidente tem confortável maioria, tendo até votos de setores da oposição favoráveis à reestatização) transformaria a YPF numa sociedade anônima com maioria estatal - o governo federal ficará com 26,01% das ações, enquanto os 24,99% restantes serão distribuídos entre as províncias produtoras de petróleo.

"A presidente Cristina recorre à retórica nacionalista para tentar recuperar a simpatia popular", avalia o colunista Fernando Laborda, do La Nación. "Sua imagem estava em queda desde a tragédia ferroviária da estação Once (na qual morreram 51 pessoas) e o escândalo de corrupção que envolve o vice-presidente Amado Boudou." Laborda ressalta que a política de Cristina está "isolando" o país.

Os analistas dizem que, assim como o general Leopoldo Fortunato Galtieri ordenou o desembarque argentino nas Malvinas em 1982 com o objetivo de distrair a atenção dos problemas sociais e econômicos, a presidente Cristina estaria subestimando as consequências internacionais da expropriação da YPF. Galtieri sofreu o contra-ataque britânico, enquanto Cristina já está sendo alvo das primeiras retaliações comerciais da Espanha.

Menem. O ex-presidente Néstor Kirchner e sua mulher Cristina reverteram nos últimos nove anos parte das privatizações feitas nos anos 90 pelo então presidente Carlos Menem. A "reargentinização" dos Kirchners implicou a reestatização do Correio Argentino, das minas de carvão Río Turbio, na Patagônia, e do Sistema Radioelétrico Nacional. Além disso, reestatizaram a totalidade dos sistemas de aposentadorias, removendo de forma compulsória os fundos de pensões.

Os Kirchners também retiraram dos franceses as privatizada Aguas Argentinas, que voltou ao controle estatal. A companhia, rebatizada de Aysa, recebeu US$ 681 milhões do governo Kirchner em 2011. No entanto, quase um terço da quantia foi utilizada para financiar seu déficit.

Mas, de todas as reestatizações, a mais polêmica antes da YPF foi a da companhia aérea Aerolíneas Argentinas, que em 2011 teve perdas diárias de US$ 2 milhões. Do total de US$ 757 milhões de fundos públicos recebidos no ano passado, a empresa - com parte da frota sucateada - destinou somente US$ 94 milhões para a compra de aviões. O resto foi utilizado para cobrir o déficit da companhia, que é administrada por integrantes de "La Cámpora", denominação da Juventude Kirchnerista, que se transformou na ala "ultra-kirchnerista" do governo.

Além de reestatizar empresas, os Kirchners também criaram pequenas estatais, tais como a Enarsa, uma energética que aspirava recuperar o protagonismo do Estado perdido com a privatização da YPF. O casal presidencial também criou uma estatal aérea, a Lafsa, fundada para salvar a estrutura de duas pequenas empresas aéreas privadas falidas.

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