Cristina pede bis

Terça-feira, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, anunciou sua candidatura à reeleição. Enfraquecida e desunida, a oposição não vem conseguindo reunir condições mínimas que evitem sua própria derrota em outubro, ainda no primeiro turno.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2011 | 00h00

Ou seja, os observadores preveem uma caminhada eleitoral sobre um tapete confortável. Contribui decisivamente para isso o desempenho da economia argentina que, na percepção do eleitor, o está beneficiando.

Neste ano, os analistas esperam um crescimento econômico ao redor dos 6,5%, num ambiente em que o desemprego (de 7,3% da força de trabalho) é o mais baixo dos últimos 30 anos e o poder aquisitivo real segue crescendo.

A inflação é problema, mas até agora não atrapalhou o jogo do governo. As estatísticas são manipuladas pelo Indec, organismo do governo. Mas os analistas são unânimes em apontar números bem mais altos, em torno dos 20%. A consultoria Abeceb, por exemplo, conduzida pelo ex-secretário da Indústria Dante Sica, aponta avanço do custo de vida de dois dígitos pelo sexto ano consecutivo. Para 2011, projeta alta de preços de 25%, quase o triplo do que dizem projeções oficiais - fato que lhe está custando a imposição de pesada multa por parte do governo.

Apesar disso, ao lado da expansão das exportações garantidas pelas compras da China e do Brasil, a demanda interna de bens e serviços segue como grande mola do crescimento econômico do país. Entre 2003 e 2010, o consumo (veja gráfico) cresceu 70,4% (6,9% ao ano), graças à agressiva política de rendas (congelamento de preços e aumentos, acima da inflação, de salários e aposentadorias). Há mais fatores que favorecem a alta da procura: juros reais negativos (que desestimulam a poupança e empurram o consumo); congelamento de tarifas de transportes, de combustíveis e de energia; e cobrança do Imposto de Exportação (retenciones) sobre alimentos, que obrigam o produtor a vendê-los internamente abaixo do preço internacional. Também não dá para desprezar o efeito sobre o consumo provocado pela valorização do peso, o que contribui para elevar o salário real. Entre junho de 2006 e final de 2010, houve valorização do peso de 32% em relação ao dólar. Como no Brasil, a valorização usada como âncora anti-inflacionária está tirando competitividade da indústria.

O congelamento dos preços, a excessiva valorização do peso e o Imposto sobre Exportações desestimulam os investimentos, especialmente, na área de energia. A indústria trabalha hoje quase no teto da capacidade instalada, na média, acima dos 80%. Mas há setores (metalurgia e borracha) operando além dos 90%.

A área fiscal (balanço entre receitas e despesas do governo central) também enfrenta forte erosão. De 2010 para cá, pelos cálculos de Dante Sica, os subsídios ao setor privado aumentaram 107%. Não há condições para aumento da carga tributária, especialmente em período pré-eleitoral, e isso dificulta a capacidade do governo argentino de manter o superávit orçamentário necessário para conter as atuais condições de falta de acesso ao mercado financeiro internacional.

Mas esses problemas não chegam a ser percebidos pelo eleitor ou não serão obstáculo relevante à reeleição de Cristina Kirchner.

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