Cláudio Silva/ Arquivo Pessoal
Cláudio Silva/ Arquivo Pessoal

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Críticas a trainee do Magalu se devem à polarização política no País, diz coordenador do SOS Racismo

Cláudio Silva elogiou decisão da varejista, de abrir seleção apenas para jovens negros, e afirmou que racismo reverso não existe

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2020 | 13h39

O coordenador do SOS Racismo, Cláudio Silva, atribui a radicalização em relação à iniciativa do Magazine Luiza de abrir um programa de trainee apenas para negros ao “fla-flu” em que a política se tornou, em que as pessoas não conseguem dialogar nem entender o oposto, “uma apontando o dedo para a outra, em vez de buscar soluções comuns para o País”.

O SOS Racismo é um programa vinculado à Assembleia Legislativa de São Paulo que recebe denúncias de discriminação em razão de origem, raça, cor, etnia ou religião e encaminha aos órgãos competentes.  

“É triste ver a que nível chegamos no Brasil, de radicalização e polarização, prejudicando nossa reflexão sobre diversos problemas que o Brasil tem historicamente”, afirma Silva, citando, além da questão racial, o feminicídio e a violência contra mulheres e negros.

O anúncio da empresa sobre o programa de trainee abriu uma disputa nas redes sociais entre os que elogiaram a medida e aqueles que acusaram o Magalu de "racismo reverso" com brancos, usando a hashtag #MagazineLuizaRacista.

Para Silva, é ainda mais perceptível como a população negra é excluída quando uma grande rede varejista apresenta proposta que ele considera uma “radicalização interna, pois o grupo não está querendo interferir nos governos municipal, estadual ou federal, quer apenas mudar sua estrutura”.

Silva afirma que “não existe racismo reverso, pois o racismo é determinado pela condição de poder que as pessoas têm, e negro não tem poder no Brasil. Se não tem poder não tem força para discriminar quem tem poder”. Ele lembra, por exemplo, que em 2013 foi criada uma lei de cota para negros de 20% em vagas no serviço público municipal e até agora não foi implantada.

Sobre a atitude do Magazine Luiza, ele se diz feliz por ver um grupo desse porte se sensibilizar com a questão do racismo e querer garantir que tenha uma representatividade negra nos seus quadros de direção. “A gente percebe que nossa luta, nossos debates e nosso posicionamento têm surtido efeito.”

Em sua opinião, o fato de não ter ocorrido tanta repercussão nas ações da Ambev e da Bayer, que também têm programas exclusivos de estágio e trainee para negros, seria o fato de a rede de varejo “ter como dona uma mulher de origem humilde, com características negras e com posições progressistas". “Tem diferença mexer com uma pessoa que tem origem nos rincões do Brasil e mexer com interesses internacionais da Bayer.”

Manifestação de coragem

Criado recentemente pelo reitor José Vicente, da Faculdade Zumbi dos Palmares, o Movimento AR divulgou nesta segunda-feira, 21, nota em apoio à varejista com o tema “Somos Todos Magalu”, em que afirma ser “uma manifestação de coragem e compromisso com o alcance da igualdade racial”  o programa de trainee lançado pela companhia.

O Movimento AR, de combate ao racismo, tem esse nome em alusão ao caso de George Floyd, homem negro morto por asfixia pelo policial branco Derek Chauvin nos Estados Unidos, o que provocou grandes manifestações no país.

Para Vicente, além de construir um novo paradigma nesse tema, a iniciativa do Magalu “irá pautar, desafiar e estimular todo o ambiente corporativo a sair do seu casulo de imobilismo e construir ações inovadoras e concretas para superar o verdadeiro estado de apartheid racial presente nos postos gerenciais e executivos das empresas nacionais e multinacionais do País”.

Anomalia

Em entrevista ao Estadão, o presidente do Magazine Luiza, Frederico Trajano, explica que a empresa fez uma pesquisa interna e viu que 53% da equipe da rede é formada por negros e pardos, mas apenas 16% têm postos de liderança.

“Vimos que tínhamos uma anomalia, um problema concreto; o caminho mais curto para se chegar à liderança é o programa de trainee, então, de certa maneira, não estávamos conseguindo atrair e selecionar essas pessoas”, disse.

Segundo ele, não se trata de oportunismo. “Queremos resolver um problema que sabemos que temos. Estamos sendo honestos em relação à necessidade de mudar uma realidade que nós mesmos criamos. Somos responsáveis por quem selecionamos e promovemos.”

Segundo a empresa, o programa lançado na sexta-feira foi desenvolvido em parceria com as consultorias Indique Uma Preta e Goldenberg, Instituto Identidades do Brasil, Faculdade Zumbi dos Palmares e Comitê de Igualdade Racial do Mulheres do Brasil. Para os selecionados, o salário será de R$ 6,6 mil, com benefícios e bônus de contratação de um salário.

 

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