Críticas de O?Neill não causam indignação na Argentina

"Nem duro, nem agressivo". Esta foi a definição do governo argentino sobre as declarações do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Paul O,Neill, que disse que o Brasil, a Argentina e o Uruguai deveriam implementar políticas para garantir que "os novos empréstimos que sejam recebidos não sairão do país para contas bancárias na Suíça". Ao contrário do Brasil, onde as declarações do "defensor dos carpinteiros" causaram profunda irritação nas esferas governamentais, na Argentina, a Casa Rosada foi cuidadosa para não irritar o governo americano. Em Buenos Aires, ninguém emitiu uma exigência de desculpas à Washington. O chefe do gabinete de ministros, Alfredo Atanasof, não demonstrou indignação. Com seu costumeiro tom monocórdio, tentou explicar as declarações colocando a culpa na imprensa sobre a péssima imagem da Argentina no exterior, como antro da corrupção: "O?Neill não foi nem duro nem agressivo, ele só está falando isso pelas coisas que lê nos jornais".Atanasof até tentou brincar, como um empregado que tenta apaziguar um partrão desconfiado de que seu funcionário esteve roubando: "O?Neill pode ficar tranqüilo, que o dinheiro não irá para conta alguma na Suíça". Hoje, o secretário-geral da presidência da República, Aníbal Fernández, admitiu que O?Neill "não utiliza termos muito cuidadosos" e definiu o secretário americano como um homem "pragmático". O presidente do Banco Central, Aldo Pignanelli, também relativizou as afirmações de O?Neill: "ele faz suas declarações desde sua função de secretário do Tesouro dos EUA. Ele colocou a necessidade de que a Argentina faça reformas".?Ladrões?Há poucas semanas, o presidente do Uruguai, Jorge Batlle, havia declarado que "os argentinos são um bando de ladrões". Nessa ocasião crítica proveniente do Uruguai - um país muito menor que os EUA e com o qual a Argentina poderia confrontar-se - causou irritação no governo do presidente Eduardo Duhalde. A crise só se resolveu com a presença do próprio presidente Battle em Buenos Aires, que teve que pedir desculpas ao presidente Duhalde e aos argentinos ao vivo, com direito a choro de arrepentimento. No entanto, apesar da fúria do governo Duhalde, diversas pesquisas feitas pelos jornais indicaram que a população argentina concordava com as afirmações de Batlle.Desta vez, no entanto, o panorama foi outro. Os principais jornais argentinos resignaram-se com as opiniões do poderoso representante do governo americano. Nenhum deles destacou a polêmica frase ou mostrou-se indignado. Somente o "Clarín" concedeu um amplo espaço ao assunto na primeira página, mas exclusivamente dedicado à irritação brasileira sobre a frase de O?Neill. As polêmicas declarações do secretário do Tesouro até obtiveram o apoio do líder sindical e atual senador José Luis Barrionuevo, que nos anos 80 ficou famoso ao afirmar que "se deixarmos de roubar durante dois anos, a economia argentina se recupera". Na época, a frase causou um escândalo, já que subentendia-se que a classe política, os sindicalistas e o próprio Barrionuevo "roubavam" os cofres públicos, freqüentemente. O líder sindical tentou explicar que havia sido mal-interpretado.Barrionuevo, um ex-aliado fanático do ex-presidente Carlos Menem (até copiou o cabelo tingido de preto com as suíças grisalhas de seu antigo chefe) que agora apóia o presidente Duhalde, ufanou-se de já ter antecipado a frase do secretário do Tesouro: "O?Neill não disse nenhuma novidade. Eu mesmo disse isso há 13 anos. Estou contente que O?Neill afirmou isso com todas as letras".O ex-vice-ministro da Economia, Orlando Ferreres, também relativizou as declarações do americano. "O que O?Neill diz é sensato, independentemente da forma como foi expressado". O economista Aldo Abram pensa da mesma forma: "a frase de O?Neill não foi diplomaticamente adequada, da mesma foram que não foram as declarações do presidente Batlle. Mas não deveria causar tanto alarde, já que coincide com a opinião da maioria das pessoas sobre nossas lideranças políticas".?Auto-flagelo?O analista político Silvio Santamarina considera que este comportamento do governo é "um auto-flagelo?. ?E este não é um esporte somente dos políticos, mas também de muitos formadores de opinião", disse. A única reação contra as declarações de O?Neill foram - paradoxalmente - provenientes de um dos setores que sempre defenderam o alinhamento automático e as "relações carnais" com os EUA, o "menemismo".O senador Eduardo Menem, irmão do ex-presidente Carlos Menem (1989-99), afirmou que "com os escândalos de corrupção que existem em seu país, O?Neill não está em condições de fazer essas declarações". As declarações do senador coincidem com a revelação, na semana passada, de que seu irmão possui uma conta bancária na Suíça. Durante uma década, "El Turco", como é conhecido o ex-presidente, negou a existência dessa conta. Além disso, o ressentimento no menemismo também decorre da recente negativa do presidente George W. Bush de reunir-se com Menem e das críticas que o FMI está fazendo contra o plano do ex-presidente de dolarizar a economia do país.

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