Crítico do governo Lula, indicado para FMI não vê contradição

Conhecido por suas posições críticas em relação à política econômica do primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o economista e professor de Política Econômica da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Paulo Nogueira Batista Júnior, não vê contradição em sua indicação como representante do Brasil e de mais oito países da América Latina no Fundo Monetário Internacional (FMI). Ao contrário, acredita que, depois de um período que privilegiou a estabilidade monetária, o próprio governo reconheceu que era hora de começar a focar o crescimento econômico.Nogueira Batista considera que sua indicação é apenas uma pequena parte de uma mudança maior. E, seguindo esse raciocínio, a surpresa em torno da indicação de seu nome como representante do Brasil no FMI não se justifica. "Eu tenho sido crítico de alguns aspectos, mas vejo que a política econômica vem mudando desde 2005. Já há uma preocupação visível com o crescimento, uma vez que a estabilidade foi alcançada. Isso ficou bem claro com o lançamento do PAC", diz Nogueira Batista, referindo-se ao Programa de Aceleração do Crescimento anunciado pelo presidente Lula no início do segundo mandato.Para o economista, o que mais incomodava na política econômica do governo Lula era o insucesso do Brasil em relação ao crescimento. "E essa preocupação não era só minha. No exterior, quando se fala em economia brasileira, há uma perplexidade generalizada quanto aos escassos índices de crescimento do PIB."Em relação às reações à escolha de seu nome, interpretada por alguns técnicos da área econômica como uma atitude de "enfrentamento" com o Fundo, Nogueira Batista esclarece que será o representante de um grupo de nove países, do qual fazem parte, além do Brasil, Colômbia, Equador, Panamá, Trinidad e Tobago, Haiti, Suriname, Guiana e República Dominicana. "Eu estarei lá como um embaixador, para defender os interesses desses países, e não os interesses do FMI. Mas cada avanço representa uma batalha, um esforço muito grande."Segundo ele, a defesa de interesses não é algo que acontece somente com países mais pobres ou menos desenvolvidos. "Todos têm que brigar para garantir seus espaços, dos Estados Unidos a Lichtenstein. Nesse aspecto, o Brasil é um país maduro, que sabe o que quer."Para o economista, o desempenho do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC) prova que o País sabe se articular no cenário internacional. "Lá, o Brasil fez uma coligação com outros 19 países, constituindo o G-20. Mas, obviamente, a dificuldade dos países pobres é muito grande, eles não têm voz, e sempre é vantajoso constituir alianças."Sobre sua expectativa em relação ao FMI, Nogueira Batista acha que a instituição passa por um processo lento de mudança nos mecanismos de regulamentação, cujo objetivo é dar um maior equilíbrio na representatividade dos 185 países membros. "Eu quero me somar a esse processo. Mas a burocracia é enorme, é tudo muito complexo."O economista vai substituir Eduardo Loyo, que deixa o cargo por motivos pessoais, depois de dois anos. Nogueira Batista assume em 16 de abril, e já prepara a sua mudança para Washington, onde deverá ficar até 2008.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.