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Críticos querem Meirelles ''político'' fora do BC

Apoio de Lula à candidatura do presidente do Banco Central causou desconforto entre analistas de mercado

Leandro Modé e Ricardo Leopoldo, O Estadao de S.Paulo

19 de agosto de 2009 | 00h00

O apoio explícito do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a uma eventual candidatura do presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, ao governo de Goiás, na última sexta-feira, aumentou o desconforto de muitos analistas de mercado com as ambições políticas de Meirelles. Para esses especialistas, a presidência do BC é incompatível com projetos eleitorais. "Se o presidente do BC toma a decisão de ser um político, ele perdeu a qualificação de independência política. Eu acho que é absolutamente incompatível você ter um político na presidência do Banco Central", diz, por exemplo, o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore. Para ele, se Meirelles decidir se filiar a um partido político, deve deixar o cargo imediatamente. Um ex-diretor do BC, que pede para ter o nome mantido sob sigilo, concorda. "A filiação cria um ruído desnecessário", diz. "Meirelles pode se comportar da melhor forma possível, mas, ainda assim, haverá sobre ele uma sombra permanente." Segundo esse executivo, "a especulação sobre a candidatura tem aparecido em conversas com clientes daqui e lá de fora". Estudioso de política monetária, o professor da Fundação Getúlio Vargas Márcio Holland endossa a posição dos colegas. "A função de preferência do BC é diferente do resto da sociedade. Em outras palavras, enquanto a sociedade prefere o emprego e a produção, um banco central sempre tem de dar prioridade ao combate à inflação (que muitas vezes implica medidas impopulares)", explica. Pela legislação eleitoral, Meirelles tem até o fim de setembro para se filiar a um partido. Mas o prazo para quem deseja disputar eleições deixar o governo é mais longo, termina em março do próximo ano. Fontes ligadas ao presidente do BC dizem que sua intenção era filiar-se agora, garantir uma legenda e decidir apenas em 2010 se concorrerá ao governo de Goiás. O que muitos especialistas estão dizendo é que o espaço entre setembro e março é grande demais para deixar no comando da política monetária alguém com projeto eleitoral. Muitos se perguntam se Meirelles seria capaz de elevar os juros - medida que sempre provoca críticas acaloradas de sindicatos e associações empresariais - às vésperas da eleição. Outra dúvida é quanto a substituição de Meirelles - seja em setembro ou em março. No mercado, acredita-se que a independência de Meirelles no comando do BC é fruto de um acordo entre ele e o presidente Lula em 2002. Portanto, um eventual substituto - mesmo que integre a atual diretoria do BC - poderia não ter a mesma força para bancar decisões impopulares em ano eleitoral. A equipe de analistas do banco BNP Paribas em Nova York afirmou, em relatório, que "os mercados começam a ficar divididos em relação à capacidade do BC de resistir às pressões para que continue afrouxando a política monetária". Essa sensação, segundo o BNP, é "aguçada pela discussão pública da saída de Meirelles para disputar as eleições em 2010". "É cada vez mais provável que Meirelles permaneça à frente do BC apenas até março de 2010." Não é de hoje que o mercado especula sobre uma eventual candidatura de Meirelles, já que o próprio presidente do BC nunca escondeu seus planos. Uma das razões pelas quais as taxas de juros futuras estariam acima de um nível compatível com as expectativas de inflação é justamente o temor da saída de Meirelles. O assunto, porém, ganhou mais força após o discurso de Lula em Goiás. Meirelles tem dito a interlocutores que os temores sobre uma atuação negligente à frente do BC entre outubro e fevereiro são descabidos. Para ele, não passa de jogo de especuladores, que têm como objetivo lucrar com apostas no mercado futuro de juros. O presidente do BC acredita que sua maior conquista é a estabilidade da inflação. Implementar uma política monetária incompatível com o cenário econômico nos próximos meses elevaria a inflação em setembro e outubro - portanto, às vésperas da eleição. COLABOROU NALU FERNANDES, DE NOVA YORK

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