CSA sai, finalmente, do papel

Com quase dois anos de atraso, siderúrgica da Vale com a ThyssenKrupp na zona oeste do Rio, será inaugurada em junho

Glauber Gonçalves, RIO, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Às vésperas da inauguração da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), na zona oeste do Rio, filas de ônibus lotam os estacionamentos da usina. Aguardam os cerca de 22 mil operários que ainda trabalham na obra. No complexo, que ocupa área equivalente a duas vezes à dos bairros de Ipanema e Leblon, o movimento é intenso para finalizar os últimos ajustes para o início das operações.

Depois de sucessivos adiamentos, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugura a usina em 18 de junho, quase quatro anos após o lançamento da pedra fundamental da obra. A CSA, parceria entre a alemã ThyssenKrupp e a Vale, entra em funcionamento com a unidade de sinterização, etapa inicial da produção do aço. As primeiras placas, no entanto, devem ser produzidas apenas em agosto, com uma defasagem de quase dois anos da primeira previsão.

O impacto visual causado pela quantidade de obras ainda em andamento, de retroescavadeiras e outros equipamentos, contrasta com o colorido das instalações da CSA. O projeto, de um arquiteto alemão, deu às instalações diferentes tons de verde, azul e outras cores. "O objetivo é melhorar a qualidade do ambiente de trabalho e também reduzir o impacto visual", diz o gerente de qualidade, Claus Günter.

Capacidade de produção. A usina vai ampliar em 5 milhões de toneladas de aço bruto ao ano a capacidade de produção do Brasil, que em 2009 era de 42 milhões de toneladas. Este ano, porém, apenas uma das duas linhas da usina entra em funcionamento, com potencial para produzir metade do total previsto para a planta.

A perspectiva da CSA é de que o segundo alto-forno, em que ocorre a etapa intermediária da produção, comece a operar no primeiro trimestre de 2011. A participação da ThyssenKrupp no negócio é de 73,13%; a Vale participa com 26,87%, porcentual que foi elevado em razão dos problemas financeiros enfrentados pelo sócio alemão durante a crise de 2008.

Para exportação. O empreendimento foi concebido com o objetivo de fornecer placas para laminação nas unidades da ThyssenKrupp no Alabama (EUA) e na Alemanha, que venderão o produto final para indústrias automobilísticas e de eletrodomésticos. O plano inicial é de que 60% da produção da CSA vá para a América do Norte e o restante para a Europa.

"A filosofia é diferente da de alguém que estivesse produzindo placas para vender ao cliente. O cliente é o sócio. Para essa planta ir bem aqui, o que importa é a Thyssen ir bem lá", diz Germano Mendes de Paula, especialista em siderurgia do Instituto de Economia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

As perspectivas do mercado americano são positivas, na avaliação de especialistas. Pedro Montenegro, analista de siderurgia da Brascan Corretora, afirma que o setor automotivo tem liderado a recuperação do setor de siderurgia dos EUA.

"O setor automotivo nos EUA tem se recuperado bem forte e tem puxado bastante a demanda por aços planos. Há perspectivas otimistas para o setor em termos de venda. É um processo de recuperação gradual", diz Montenegro.

Migração de siderúrgicas. A escolha do Brasil para a construção da usina pela ThyssenKrupp revela uma tendência de deslocamento das siderúrgicas dos países desenvolvidos para os emergentes, explica Felipe Reis, analista de siderurgia e mineração do Santander. "As usinas da Europa, por exemplo, são muito antigas e, por isso, têm mais impactos no meio ambiente."

Para Germano de Paula, o Brasil é um país competitivo para a produção de placas de aço. "O País oferece condição de custo privilegiada, por ter minério de ferro de ótima qualidade, recursos humanos de boa qualidade e equipes gerenciais muito boas."

Essas características pesaram na definição do investimento da ThyssenKrupp no Brasil, de acordo com o vice-presidente financeiro da CSA, Rodrigo Tostes. "O Brasil deve ser a primeira opção quando se pensa em se construir uma planta (siderúrgica)."

Porto privativo. Localizada no distrito industrial de Santa Cruz, zona oeste do Rio, a planta fica próxima à Baía de Sepetiba, onde foi construído um porto privativo com dois terminais. Há ainda um ramal ferroviário da MRS (do qual a Vale é sócia) que foi estendido até a siderúrgica.

Além dos terminais marítimos, a empresa construiu uma usina termoelétrica que produzirá energia com os gases e vapores resultantes da produção do aço. A capacidade será de 490 megawatts. Do total, 290 MW serão utilizados na planta e o excedente já foi negociado em leilão da Aneel e será distribuído por meio do Sistema Interligado Nacional, informou a CSA.

O projeto teve financiamento de R$ 1,487 bilhões do BNDES, que pretende apoiar mais empreendimentos do setor de siderurgia, segundo o gerente de insumos básicos do banco, Guilherme Cardoso. "O Brasil hoje é um dos países, senão o país, onde o investimento em siderurgia se mostra mais atrativo. O banco está aberto para empresas que tenham planos de investir no setor." Hoje, a carteira total do BNDES em financiamentos contratados e aprovados para siderurgia soma R$ 6 bilhões.

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