Wlaterson Rosa/Caixa
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‘Cuidar do componente social é o que dá sentido à Caixa’, diz Pedro Guimarães

Presidente do banco relata os desafios de torná-lo digital, competitivo, e prestar serviço a pessoas modestas que vivem em pequenas cidades

Entrevista com

Pedro Guimarães, presidente da Caixa Econômica Federal

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2020 | 05h00

Convidado por Paulo Guedes, empossado por Jair Bolsonaro, Pedro Guimarães* assumiu a presidência da Caixa em janeiro de 2019 e logo trocou 90% de todo o seu comando. Foi mudando as metas e, já em 2020, teve de organizar às pressas um esquema inédito para distribuir o auxílio emergencial a mais de 67 milhões de brasileiros. São duas pontas de uma tarefa nada simples – tornar a Caixa um banco digital e competitivo e cumprir sua vocação social, que é servir a milhões de pessoas simples, que vivem em modestas cidades pelo Brasil afora. 

É nessa linha que o carioca Guimarães entende a razão de ser da Caixa, num País que já tem um banco público de peso como o Banco do Brasil: o “componente social” lhe dá esse sentido, “quando você faz uma série de operações em conjunto”. A Caixa, para ele, é “o banco das relações com as prefeituras”, que só não está em seis das 5.570 cidades do País e que responde “por 99% da habitação popular”. A seguir, os principais trechos da entrevista. 

Quando você chegou à Caixa passou-lhe pela cabeça se ela seria tão necessária, já que existe uma instituição de peso como o Banco do Brasil? Seriam dois grande bancos públicos numa mesma federação, né?

Quando assumi e comecei a viajar pelo País, vi uma outra realidade, totalmente diferente. Ficou claro que há um componente social da Caixa que faz todo sentido, quando você vê as operações em conjunto. Somos o banco das relações com as prefeituras, em especial as menores – e com garantia do Tesouro, portanto nunca tivemos perda financeira. O banco que faz 99% da habitação popular, no Minha Casa Minha Vida. É muito mais que um banco comercial.

Ela é um banco federal mas, diferentemente do BB, não tem capital aberto. Por quê?

Isso é uma decisão entre ministro (da Economia) e presidente. Estamos no caminho da abertura de capital da Caixa Seguridade, fizemos reuniões muito positivas com investidores. Mas não há nenhuma discussão sobre privatização.

Mas não é privatização e sim abertura de capital, como fez o BB.

Perfeito. Mas há essa determinação de nem se discutir a privatização. Mesmo a abertura de capital não está em minhas mãos, é com o ministro e o presidente. 

Não acha que isso daria mais transparência às atividades da Caixa?

Vimos que a abertura de capital da Caixa Seguridade melhorou muito a questão comercial, porque forçou tanto os gestores de seguros quanto o resto do banco a ter conversas muito mais objetivas. Isso todo mundo percebeu. 

Provavelmente valorizou as ações que a própria Caixa tem, não?

De fato. Tanto que ela bateu o recorde de operações de venda de seguros em junho, julho, agosto e setembro. Fez isso enquanto pagava o auxílio emergencial a milhões de pessoas pelo País afora.

Depois do auxílio emergencial, pode contar como será agora a segunda etapa do programa, o chamado extensão?

A primeira fase garantiu cinco parcelas a 67,7 milhões de pessoas. E a segunda, o extensão, tem até quatro parcelas. Mas o cidadão só começa a recebê-lo quando já tiver recebido as cinco parcelas do emergencial. É um pouco complicado, mas cabe lembrar: as pessoas não vão receber dois ou três pagamentos de uma vez só.

O extensão, de R$ 300, é metade do emergencial, né? Vê algum risco de esfriar a economia? 

O que vimos, em especial no Norte e Nordeste, e em cidades menores, foi um aquecimento econômico bem acima do que havia antes de começar a pandemia do covid-19. Viajamos pelo País inteiro. Em Pacaraima, fronteira com a Venezuela, por exemplo, o auxílio multiplicou as lojas de construção e os pequenos mercados. 

Dá pra fazer um balanço do que representou o auxílio emergencial? 

O que podemos dizer? Que o Nordeste, com 14% do PIB, recebeu 34% do auxílio. E a região Norte, entre 5% e 10%. É uma demonstração matemática de que as pessoas mais carentes não estão só no Norte e Nordeste, mas em especial nas cidades menores. Em cidades do interior do Amapá, 60% ou 70% da população adulta está recebendo o auxílio. Mas o impacto disso só será sentido lá por fevereiro e março de 2021. 

Você já disse antes que 50 milhões de brasileiros não têm conta corrente. Isso vai melhorar a bancarização no País? 

Veja, foram 33 milhões de pessoas que abriram conta, e de graça – não se inclui aí o Bolsa Família. E considere que isso vai permanecer após a pandemia. Eles poderão fazer transferências, pagar contas. É gente que, quando precisava de dinheiro, antes, tomavam do agiota ou de financeiras, em até 20% ao mês. Agora, após o auxílio vamos lançar um grande programa de microcrédito com taxas inferiores ao que eles pagavam antes. Isso vai ser lá pra fevereiro ou março de 2021. 

Pra executar esse programa gigante de distribuição vocês tiveram de suspender outros projetos. Ou não?

Com a revolução digital que tivemos, a coisa ficou mais eficiente. O microcrédito, por exemplo, nós vínhamos trabalhando de outra forma. Não é economicamente viável nem rentável fazer operações de empréstimos de R$ 100 ou R$ 200 com base nas agências e loterias. A saída era o aplicativo que desenvolvemos. 

Assim que assumiu a Caixa, você trocou simplesmente 90% da diretoria. Como foi essa mudança?

O banco sempre foi focado nos mais carentes. Mas tínhamos alguns problemas com balanços que havia quatro anos não eram auditados. Claramente esses compromissos estavam subprovisionados. Havia falta de confiança e, além disso, tínhamos outras metas dali por diante. Então, todos os vice-presidentes foram trocados, bem como 21 dos 22 diretores.

Sobrou um?

Sim, o diretor jurídico, que é muito bom. E entre os 12 vice-presidentes agora temos três mulheres (não havia nenhuma) e vários diretores com menos de 40 anos. É gente viajando o País inteiro, vendo a enorme diferença entre São Paulo e, por exemplo, Basileia, no Acre. Estamos falando de 10 milhões de pessoas. 

Deve haver algum custo nessa ampliação. O que significa manter 33 milhões de clientes digitais sem cobrar tarifas?

Justamente por causa da solução digital o custo acaba ficando bem menor. E por causa da pandemia o Banco Central nos autorizou a abrir as contas com menos dados que o normal. 

A Caixa, a exemplo do BNDES, oferece aos funcionários algum apoio jurídico em caso de processos? 

Sim, desde que não tenham a ver com fraudes, ou coisas desse tipo. E veja, muitas vezes esses problemas aparecem muitos anos depois, e não na gestão em que ocorreram. 

No Banco Central eles não garantem, que eu saiba. Acha que isso deveria se estender por toda a administração federal?

O que posso dizer, pela Caixa, é que é uma coisa justa quando você toma decisões relevantes, impactantes para a sociedade. Como por exemplo o auxílio emergencial. A lei passou no dia 2 de abril e dia 6 já tínhamos o aplicativo em ação. Mas sem o mínimo de segurança, de defesa, fica difícil.

Pode explicar como é o financiamento de casas para indígenas? Se eles são inimputáveis, como funciona isso? 

É o que a gente chama de faixa 1 do MCMV. Um programa social onde as perdas eventuais são assumidas pelo Tesouro. Ou seja, a Caixa só tem riscos de crédito nas outras três faixas, a 1,5, a 2 e a 3. É um financiamento, no caso, que só pode mesmo ser feito pelo governo.

Essa faixa tem quantas pessoas? E quanto elas representam no total do Minha Casa Minha Vida?

Do ponto de vista financeiro, dá uns 10%. Mas o que acontece? A Caixa recebe pra fazer medições. A responsabilidade é ver se a casa está de fato sendo construída e liberar o dinheiro correspondente. O agente financeiro, seja do Tesouro ou do MCMV, avalia o risco. A contrapartida é que recebemos para fazer a gestão do FGTS. Nesse cenário, temos a folha de pagamento de praticamente todas as cidades menores.

Outra coisa que vocês fizeram diferente das gestões anteriores foi renegociar dívidas, o que na gestão pública sempre levanta preocupações. Como organizou essa tarefa?

Antes de assumir, fiquei dois meses em Brasília pra entender, no TCU e na CGU, quais eram as críticas. Aí fizemos duas ofertas de venda de ações do Banco Pan e tivemos um lucro grande. Quando assumimos a ação estava em R$ 1,50 e vendemos a R$ 8,25, ou R$ 8,30. Outro exemplo: fazia anos que não se trocavam os computadores de grande porte e trocamos seis no ano passado. Sem isso, não teríamos como fazer o pagamento do auxílio. 

Quando seu mandato acabar, você volta à economia privada ou continua no setor, de alguma maneira?

Meu foco é para os próximos dois anos e meio. O que posso de dizer, agora, é que mudei como pessoa. Indo às realidades, certamente não sou o mesmo Pedro de um ano e 9 meses atrás. Tenho uma sensibilidade às questões brasileiras, a desigualdade é muito maior. E tenho orgulho de ver que a Caixa pode ajudar a reduzir esses problemas.

*QUEM É: ECONOMISTA, 49 ANOS, PHD PELA UNIVERSIDADE DE ROCHESTER, EUA, FOI CONVIDADO PELO PRESIDENTE BOLSONARO E ASSUMIU COMO PRESIDENTE DA CAIXA EM JANEIRO DE 2019.

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