Culpar a China não resolve

Enquanto o movimento contra a intervenção estatal ganha força nos Estados Unidos, outros países, como o Japão, decidem copiar a China e 'administrar' suas moedas

Anatole Kaletsky / The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2010 | 00h00

É uma aposta segura que uma intervenção na moeda asiática não estava nas mentes dos votantes na plenária republicana de Delaware quando escolheram a preferida do movimento Tea Party, Christine O" Donnell, para concorrer ao Senado. Mas as oscilações do pêndulo na política americana são uma preocupação central para Wen Jiabao e Naoto Kan, os primeiros-ministros da China e do Japão, que se reuniram com o presidente Barack Obama em Nova York na quinta-feira para tratar, com prioridade, da perda de empregos americanos para a competição asiática.

O interesse de países asiáticos pela política americana decorre não só da posição dos EUA como única superpotência global, mas também de uma crença crescente entre líderes asiáticos que a era de hegemonia americana se esgotará em breve, e que a polarização em sua política simboliza a incapacidade de a América se adaptar à natureza cambiante do capitalismo global após a crise financeira.

O que tem a ver essa declaração radical com o preço do iene? Muito. Em 15 de setembro, o iene caiu fortemente ante o dólar, melhorando a competitividade dos exportadores japoneses. Após uma breve recuperação na semana passada, espera-se o prosseguimento da tendência baixista. O governo Kan decidiu seguir o caminho da China e de outros países asiáticos na "administração" (alguns críticos diriam manipulação) de sua moeda; ele gastou recordes US$ 23 bilhões em um único dia em bolsas estrangeiras - a maior intervenção do gênero já feita - em vez de deixar o valor do iene ao sabor das forças do mercado.

Para entender como essa decisão afetará os EUA, precisamos começar com a política paroquial da Ásia, que continua sendo uma terra desconhecida para a maioria dos americanos. Na política asiática, o que se vê é, com frequência, o oposto do que ocorre. Em 14 de setembro, Kan, que é considerado um defensor do livre mercado, se sustentou no cargo numa eleição intrapartidária após um duro desafio de seu rival Ichiro Ozawa, que havia pedido alto e bom som uma política ao estilo chinês de intervenção na moeda para manter baixo o valor do iene. Com a vitória de Kan, os investidores imaginaram que a intervenção monetária estava fora da agenda e correram para o iene, provocando uma alta para um pico de 15 anos do iene ante o dólar.

Ocorre, porém, que Kan, ao vencer a eleição, pode ter tacitamente cedido o controle da política econômica a Ozawa, conhecido como o "xogum sombra" por suas proezas em acordos de bastidores. Seguiu-se daí a liquidação do iene.

A decisão de romper com a ideologia de livre mercado e gastar dinheiro do governo para controlar o valor do iene ante o dólar foi movida, sobretudo, pelo relacionamento do Japão com a China, e não com os EUA. Companhias japoneses, entre as quais Sony e Toyota, que haviam pedido uma ação do governo para desvalorizar o iene, não estavam preocupadas com sua competitividade ante rivais americanas. A motivação foi o medo de serem vencidas por exportadores da China, Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan - países que administram agressivamente suas taxas de câmbio.

Com a política econômica chinesa servindo de modelo para outros países asiáticos, o Japão ficou diante de uma escolha simples: apoiar críticas americanas que a China está mantendo o valor de sua moeda artificialmente baixo, ou imitar a China. É um sinal dos tempos que o Japão tenha optado por seguir a China sob pena de irritar os EUA.

A ação do Japão sugere que o predomínio do pensamento de livre mercado na economia internacional terminou. Washington deve compreender isso, ou se verá superado em suas tratativas com o resto do mundo. Em vez de ficarem obcecados com a manipulação monetária da China como se essa fosse uma exceção em um mundo de forças irrestritas do mercado, os EUA precisam se adaptar a um ambiente em que desequilíbrios comerciais e cambiais são administrados conscientemente e se tornaram um tema legítimo para debates em fóruns internacionais como o G-20.

Fundamentalistas de mercado. Os fundamentalistas do mercado que sentem que a interferência de governos é um tabu devem ser lembrados de que, pelos padrões dogmáticos de hoje, Ronald Reagan presidiu duas das maiores intervenções monetárias da história: o acordo de Plaza, que desvalorizou o dólar em 1985, e o do Louvre de 1987, que encerrou a desvalorização.

As regras do capitalismo mudaram irrevogavelmente desde o colapso do Lehman Brothers há dois anos - e se os EUA se recusarem a aceitar isso, a liderança global lhe escorrerá por entre os dedos.

Nesse clima, o fundamentalismo de mercado do Tea Party, baseado numa aversão instintiva a governos e numa fé de que "o mercado está sempre certo", é motivo de riso em todo o mundo. No entanto, figuras mais moderadas de ambos os partidos sustentam em grande parte a mesma visão: uma medida para punir a China sobre sua moeda foi aprovada na Comissão de Modos e Meios da Câmara com apoio bipartidário.

Fora dos EUA, porém, existe hoje uma forte convicção de que alguma nova versão de capitalismo global deve evoluir para substituir o chamado "consenso de Washington".

Se as forças do mercado não podem fazer uma coisa tão simples como financiar hipotecas de casas, será o caso confiar nos mercados para restaurarem e manterem o pleno emprego, reduzirem os desequilíbrios globais ou impedirem a destruição do meio ambiente e nos prepararem para um futuro sem combustíveis fósseis? Essa é a pergunta que os formuladores políticos fora dos EUA, especialmente na Ásia, estão hoje fazendo. E a resposta é "sim e não".

Sim, porque os mercados são o melhor mecanismo para alocar recursos escassos. Não, porque os investidores no mercado são com frequência míopes, não conseguem refletir objetivos sociais amplamente sustentados e às vezes cometem erros catastróficos. Há momentos em que governos precisam criar incentivos ao mercado para alcançar objetivos que são determinados pela política e não pelos próprios mercados, entre os quais estabilidade financeira, proteção ambiental, independência energética e alívio da pobreza.

Isso não significa que os governos ficarão maiores. O novo modelo de capitalismo que evolui na Ásia e partes da Europa geralmente requer um governo menor, mas mais eficiente. Muitas atividades consideradas garantidas como prerrogativas de governo nos EUA foram há muito privatizadas em países estrangeiros.

O que nos traz de volta a Delaware. O que ocorrerá se os EUA decidirem ignorar a reinvenção global do capitalismo e optarem por uma reprise nostálgica do fundamentalismo de mercado? Isso não impedirá o resto do mundo de mudar de curso.

Antes tornará mais provável que o modelo econômico dominante não será um produto do capitalismo democrático, baseado em valores ocidentais e na liderança americana. Será um capitalismo liderado por Estados autoritários inspirado em valores asiáticos. Se os EUA optarem pela nostalgia e a ideologia e não pelo pragmatismo e o progresso, o novo modelo de capitalismo provavelmente será "made in China", como tudo o mais no mundo hoje em dia. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É ECONOMISTA-CHEFE DE EMPRESA DE CONSULTORIA BASEADA EM HONG KONG

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