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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Cúmplices celestiais

A longa jornada dos satélites

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2019 | 04h00

A História do Renascimento – movimento que resgatou a humanidade da ignorância e superstição da Idade Média rumo a um mundo ancorado em Artes e Ciências – está intimamente ligada à família italiana Médici, que dominou a cena política e econômica na cidade-estado italiana de Florença por cerca de 300 anos (entre 1434 e 1737). Sua riqueza originou-se no comércio de tecidos, e multiplicou-se com o Banco Medici (fundado em 1397), uma das instituições financeiras mais respeitadas durante sua existência (o banco foi encerrado em 1494). Patrocinando artistas e cientistas, que não mais precisavam se preocupar com fontes de financiamento para seus trabalhos, a família proporcionou um ambiente fértil para o desenvolvimento de nomes como o arquiteto Filippo Brunelleschi (1377-1446), o versátil Leonardo da Vinci (1452-1519) e o pintor Sandro Botticelli (1445-1510).

Cosimo II (1590–1621) foi Grão-Duque da Toscana (que substituiu o Ducado de Florença em 1569) desde 1609 até sua morte. Um dos tutores responsáveis por sua educação foi ninguém menos que o astrônomo e físico italiano Galileu Galilei (1564-1642), precursor da ciência baseada em observações minuciosas e da introdução do método científico (no qual os “fatos” se impõem sobre todas as outras coisas). 

Entre 7 e 13 de janeiro de 1610, Galileu observou com seu recém-construído telescópio que quatro “estrelas” cujas posições em relação a Júpiter estavam mudando inexplicavelmente – a não ser que elas estivessem orbitando o planeta. Júpiter. Em latim, a palavra “satellitem” pode ser traduzida como "companheiro, cúmplice, assistente", enquanto no francês do século XIV o termo “satellite” referia-se a um "seguidor ou assistente de uma pessoa superior". Para homenagear Cosimo II e seus três irmãos, Galileu batizou os quatro astros como “Sidera Medicæa” (ou “Estrelas de Medici”). Em 1614, o astrônomo alemão Simon Marius (1573-1625) publicou seu “Mundus Iovialis”, no qual batizou os satélites de Io, Europa, Ganimedes e Calisto por “satisfazerem o deus Júpiter”.

O impacto dessas observações foi devastador para a ordem estabelecida até então – como era possível observar corpos celestes que não orbitavam a Terra, considerada o centro do Universo? Foi um passo fundamental para modificar a visão geocêntrica do sistema solar, na qual o papel central era reservado ao nosso planeta, e impor a correta visão heliocêntrica, na qual o Sol é o protagonista. Essa visão já havia sido sugerida em algum momento entre os anos 300 e 200 A.C. pelo astrônomo grego Aristarco de Samos, mas foi necessário aguardar quase dois mil anos pela publicação do “De revolutionibus orbium coelestium” (“Sobre as Revoluções das Esferas Celestiais”) em 1543, do astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543).

Falamos aqui sobre a forma como a tecnologia é construída com base nos avanços desenvolvidos ao longo do tempo por um grande número de cientistas e pesquisadores, e da rivalidade entre Isaac Newton e Robert Hooke. Ambos os aspectos de nossa coluna anterior entram em cena aqui. A autoria da Lei da Gravitação Universal, publicada por Newton em seu “Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica” (algo como “Princípios Matemáticos da Filosofia Natural”) em 1687, foi contestada por Hooke. E a construção dessa teoria passou por gigantes como Galileu, Copérnico e finalmente Johannes Kepler (1571-1630), astrônomo alemão que estabeleceu as leis dos movimentos planetários.

Talvez o primeiro uso da palavra “satélite” para descrever uma máquina em órbita da Terra tenha sido feito pelo escritor francês Jules Verne (1828-1905) em seu livro de 1879 “Les Cinq cents millions de la Bégum” (“Os quinhentos milhões da Begun”, sendo o termo “Begun” utilizado para designar uma aristocrata de origem asiática) – curiosamente, trata-se da primeira publicação do autor que emprega uma visão pessimista em relação à tecnologia. A ficção tornou-se fato em 1957, quando a União Soviética colocou o Sputnik I em órbita da Terra.

Desde 1962, a Organização das Nações Unidas (ONU), através do “Office for Outer Space Affairs” (grupo que lida com assuntos relacionados ao espaço exterior) mantém um cadastro dos objetos lançados ao espaço. De acordo com este cadastro, já lançamos 8.378 objetos ao espaço – deste número, 4.987 ainda estão em órbita da Terra, sendo que apenas 1.957 (por coincidência, o ano de lançamento do Sputnik I) ainda estão ativos. Os diversos negócios que esses satélites estão apoiando, e o que o futuro desta área nos reserva são nossos tópicos para a próxima coluna. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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