''Cumpri devotamente o mister''

Em e-mail, Milton Zuanazzi, ex-presidente da Anac, confessa que obedeceu a ordens do governo no caso Varig

Ricardo Grinbaum e Mariana Barbosa, O Estadao de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 00h00

Três semanas depois de assumir a diretoria para a América Latina da operadora de turismo CVC, o ex-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Milton Zuanazzi deixou o cargo. Ele se preparava para assumir o escritório em Buenos Aires. Ontem, se reuniu com diretores da empresa para acertar a sua saída. Zuanazzi e a CVC não quiseram comentar as razões do desligamento.Desde sua contratação, a diretoria da CVC recebeu muitos e-mails de protesto de familiares das 199 vítimas do vôo 3054 da TAM, que morreram em 17 de julho de 2007. Os textos faziam referência à ação de improbidade administrativa do Ministério Público Federal contra Zuanazzi.Sua saída da CVC ocorre dias depois de terem vindo a público denúncias de tráfico de influência e insinuações de suborno no processo de aprovação da venda da VarigLog e da Varig.Segundo entrevista dada ao Estado pela ex-diretora da Anac Denise Abreu, Zuanazzi era o "porta-voz" do governo nas discussões sobre o caso Varig e VarigLog, e teria feito pressões para aprovar o negócio. "Eu quero deixar ressalvado que a pressa do presidente da Anac (para aprovar a venda da VarigLog) não era compartilhada nem pelo Leur Lomanto, nem pelo Jorge Velozo (outros ex-diretores da Anac), muito menos por mim."Segundo ela, Zuanazzi também teria atuado para manter as antigas rotas da Varig nas mãos da empresa depois que ela foi comprada pela VarigLog. Na época, diretores da Anac queriam distribuir rotas que não estavam sendo usadas e os novos donos da Varig brigavam para mantê-las sob seu controle."O presidente da Anac tinha muita relação dentro do palácio do governo, então eles eram muito informados de como atuávamos, o que dizíamos, o que pensávamos, as estratégias judiciais que seriam utilizadas, o tempo inteiro", disse Denise, ao descrever como foi a briga pelas rotas da Varig.Denise contou que a pressão da Casa Civil sobre Zuanazzi ficou evidente num e-mail que ele teria escrito para a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, logo após a aprovação da venda da VarigLog.O e-mail, continuou Denise, ficou registrado em um arquivo da diretoria da Anac e, meses mais tarde, foi encontrado e distribuído por funcionários da agência. O presidente da Anac teria dito, à época, que se tratava de um desabafo que havia escrito, mas não havia remetido a Dilma. Zuanazzi não quis falar ao Estado. A assessoria confirmou que ele escreveu uma carta, mas o texto nunca foi enviado à ministra. Mas, segundo a assessoria, o texto que vazou no sistema interno da agência não seria o original, mas sim um texto "adulterado". Na correspondência, segundo Denise, Zuanazzi critica o governo por não ter tomado nenhuma atitude para salvar a Varig. E que ele teria assumido o papel de articulador do processo, até mesmo "perdendo a liderança" entre outros diretores da Anac.Ainda segundo Denise, Zuanazzi escreveu que estava disposto a sair da Anac porque havia sofrido pressões muito grandes e deveriam ocorrer mudanças na agência. Denise questiona: "Iria mudar como? Se é só mediante mandato (a nomeação dos diretores da Anac) e só nós podíamos renunciar. Tudo isso foi bastante revelador".No e-mail, Zuanazzi teria feito referências a uma certa "figura impoluta". Perguntada sobre quem seria essa figura, Denise deu a sua interpretação dos fatos: "No e-mail, eu não posso dizer quem é a pessoa a quem ele está se referindo. Mas várias vezes ele se referia ao Roberto Teixeira como a uma pessoa impoluta. Então talvez seja a mesma figura".O Estado teve acesso a uma cópia da correspondência citada por Denise. No texto, Zuanazzi faz várias queixas. "Tive que, sozinho, com uma pequena ajuda do Carlos Wilson (ex-presidente da Infraero), na undécima hora, ouvindo xingamento de ti e da Erenice (Guerra, secretária-executiva do Ministério da Casa Civil), sem poder sequer responder, pois os demais estavam ao meu lado, tendo que atender o Marinho (Luiz, ex-ministro do Trabalho) a toda hora, sem falar daquela figura impoluta que conheces. Mas o governo não podia enquadrar ninguém, pois estava em jogo sua preservação e do presidente. Cumpri devotamente o mister."O ex-presidente da agência, que em tese é independente, diz qual era a sua relação com o governo. "Obedeci e obedecerei. Orgulho-me de ser disciplinado e parceiro, o que nada tem a ver com dependência de cargo ou coisa do gênero."

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