Cúpula do G-20 faz pressão sobre UE

Esboço do documento final do encontro pede que 'todas medidas políticas necessárias' sejam tomadas para manter a zona do euro intacta

DENISE CHRISPIM MARIN, ENVIADA ESPECIAL / MÉXICO, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2012 | 03h01

Os líderes europeus concordaram em tomar "todas as medidas de política necessárias" para manter a zona do euro estável e intacta, de acordo com o rascunho do comunicado final da sétima reunião de cúpula do G-20, realizada em San José de Los Cabos, no México.

O resultado das eleições da Grécia, com a vitória do candidato pró-resgate, não deu o alívio esperado nos mercados financeiros nem dissipou a sensação de que uma tormenta ainda maior pode descarrilar a economia mundial.

O documento do G-20 deverá pressionar os países da zona do euro a quebrar o "círculo vicioso" entre governos e bancos e deu as boas-vindas ao plano espanhol de recapitalização de suas instituições bancárias. "Nós apoiamos a intenção (da Europa) de considerar passos concretos para uma arquitetura financeira mais integrada, abrangendo a supervisão e a recapitalização bancária e as garantias de depósitos", informa o rascunho obtido pelo Estado.

Mas, antes de a cúpula do G-20 ser oficialmente aberta, na tarde de ontem, a União Europeia já frustrava qualquer esperança na tomada de decisões rápidas para aliviar as crises bancária e da dívida na zona do euro. Os presidentes da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, e do Conselho Europeu, Herman van Rompuy, advertiram não haver possibilidade de decisões no fim deste mês, durante reunião dos líderes do bloco em Bruxelas, sobre os mecanismos de socorro aos bancos e de unificação das dívidas soberanas de países da região.

A única expectativa prática do encontro do G-20, que termina hoje, é fazer a Europa se movimentar de forma mais rápida e pontual para resolver seus problemas. O objetivo urgente é ainda evitar o contágio da economia e do sistema financeiro mundiais. "Não vamos tomar decisões definitivas em junho", afirmou Van Rompuy. "Nem todos os membros do G-20 são democracias. Nós somos, e isso significa que se leva mais tempo para a tomada de decisões e para o consenso", completou Barroso.

Ambos explicaram que a unificação das dívidas vai requerer reformas no tratado de formação da União Europeia e em legislações nacionais. Esse objetivo, afirmou Durão Barroso, tornará a integração mais profunda e será essencial para a estabilidade, no futuro. Mas é um caminho de longo prazo.

Tempo também será necessário para a união bancária. Neste momento, reconheceu Barroso, será possível adotar apenas medidas conjuntas de supervisão do setor. A discussão sobre a união envolverá debates nevrálgicos, como as diferentes idades mínimas de aposentadoria dos países da região.

Barroso afirmou não ter surgido ainda um pedido formal da Espanha à Europa de 100 bilhões para socorrer seus bancos - iniciativa anunciada há duas semanas. Somente a partir dessa atitude será possível determinar qual mecanismo europeu desembolsará a ajuda.

Confronto. Depois de apelar pela confiança do G-20 nos passos já dados e nas próximas decisões da UE, Barroso tentou desarmar qualquer nova pressão dos Estados Unidos por ações mais rápidas. Lembrou que a Europa dá uma contribuição financeira muito maior do que a americana ao Fundo Monetário Internacional (FMI) e que não foi, ao contrário dos EUA, o detonador da crise de 2008. A Europa, destacou ele, é o maior parceiro comercial da América. "Vamos ter de resolver a crise juntos."

Os líderes do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) foram mais contundentes, ao afirmar ser necessário o G-20 emitir um "forte documento" em favor do combate ao crescimento em queda e aos efeitos da crise da zona do euro. Mas, o rascunho do documento não respondeu a essa demanda. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, criticou o fato de não ter havido avanços na economia mundial desde o último encontro do G- 20 e recomendou uma "mudança total da estratégia do grupo".

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