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Guy Perelmuter
O Futuro dos Negócios
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Curtidas bilionárias

Com a tecnologia, afastamos quem está perto para nos conectarmos com quem está longe

*Guy Perelmuter, O Estado de S.Paulo

06 Setembro 2018 | 03h00

Os impactos na sociedade causados por um futuro onde a tecnologia exerce participação crescente são motivos de especulação e preocupação. Se por um lado o acesso e uso diário de dispositivos, sistemas e equipamentos sofisticados permite ganhos expressivos de tempo e aumento de eficiência, por outro criam novos problemas comportamentais com consequências ainda desconhecidas. A engenharia social, que discutimos na última coluna, é uma das principais causas de invasões a sistemas computacionais.

Já vimos aqui que estudos científicos demonstram que o próprio uso da tecnologia provoca uma reorganização das conexões neurais, fenômeno conhecido como neuroplasticidade (a capacidade que o cérebro possui de se reorganizar, transferindo o processamento de uma região para outra, ou ainda reforçando ou enfraquecendo sinapses específicas). A tecnologia que temos no bolso permite aproximar aqueles que estão longe - mas acaba por afastar aqueles que estão próximos. É comum ir a um restaurante e verificar mesas nas quais todos os presentes estão olhando para as telas de seus smartphones, desconectados do “aqui” e “agora”.

O seriado televisivo britânico “Black Mirror”, criado pelo inglês Charlie Brooker, procura representar diversas possíveis instâncias do futuro próximo. De acordo com o próprio Booker, o nome do seriado  (em português, “Espelho Negro”) deriva do reflexo de nossas imagens nas telas desligadas de nossos dispositivos portáteis. Em um dos episódios, chamado “Nosedive” - expressão utilizada para representar aviões que dirigem-se ao solo de forma extremamente veloz e frequentemente descontrolada - a situação socioeconômica de todos os indivíduos é diretamente dependente das notas recebidas em todas as suas interações, tanto no mundo virtual quanto no mundo físico. Pessoas com mais estrelas (ou curtidas, ou likes) têm acesso a tratamento diferenciado, filas menores e descontos maiores. O episódio conta a história de uma jovem que, na busca por uma “nota social” melhor, embarca em uma espiral descendente com consequências dramáticas.

A forma como nos comportamos perante um teclado e uma tela é surpreendente em diversos aspectos, e claramente reforça uma antiga característica do ser humano: a necessidade de “pertencer” a uma comunidade, fazer parte de algo maior que si mesmo e identificar-se com outros que possuem interesses, princípios ou gostos similares. Até recentemente, tínhamos que estar geograficamente próximos daqueles com quem pretendíamos discutir, compartilhar ou apresentar assuntos de interesse mútuo. Com a Internet e a conexão instantânea a praticamente qualquer parte do mundo, esta restrição mudou. É fácil, barato e estimulante ingressar em uma comunidade global - tão fácil que dificilmente isso é feito apenas uma ou duas vezes. Temos dezenas de grupos de Whatsapp, seguimos centenas de pessoas no Twitter, temos milhares de amigos no Facebook (que às vezes nem conhecemos pessoalmente), curtimos dezenas de fotos por dia no Instagram e compartilhamos informações - desde as mais banais até as mais relevantes - com uma rede de contatos que é composta por família, amigos, conhecidos, amigos de amigos e conhecidos de conhecidos.

A montagem, manutenção, exploração e expansão de redes sociais tornou-se um dos maiores negócios do novo milênio - e os números produzidos são surpreendentes. O Facebook, por exemplo, que no final de agosto tinha valor de mercado de cerca de US$ 500 bilhões e uma das marcas mais valiosas do mundo, tinha menos de 200 milhões de usuários no primeiro trimestre de 2009. Nove anos depois, esse número era superior a 2 bilhões. O YouTube - criado em fevereiro de 2005 e adquirido pela Google em novembro de 2006 por US$ 1,65 bilhão - conta com mais de 1,5 bilhão de usuários. Este também é o número estimado de usuários do aplicativo de mensagens Whatsapp, fundado em 2009 e adquirido pelo Facebook em fevereiro de 2014 por nada menos que US$ 19,3 bilhões. O Instagram, fundado em 2010 e hoje com mais de 800 milhões de usuários, também foi adquirido pelo Facebook por cerca de U$ 1 bilhão, em abril de 2012.

Na próxima coluna iremos discutir não apenas o sentido econômico dessas transações, mas também os princípios por trás da fascinação que redes sociais exercem sobre os usuários, gerando mudanças nos modelos de negócios em praticamente todo universo corporativo. Até lá.

*Fundador da GRIDS Capital, é Engenheiro de Computação e Mestre em Inteligência Artificial

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