Gary Cameron/Reuters
Gary Cameron/Reuters

Curva de juros dos EUA volta a se inverter e aumenta temor de recessão

Nas últimas décadas, todas as recessões da economia americana foram precedidas de uma inversão na curva de juros, quando os rendimentos dos títulos de curto prazo ficam mais elevados do que os de longo prazo

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2022 | 17h33

Inversões na curva de rendimento dos treasuries, que são os títulos do Tesouro americano, têm servido de presságio para investidores quanto à possibilidade de a economia dos Estados Unidos enfrentar um período de recessão à frente.

No início da semana, o rendimento dos títulos com vencimento de 5 anos foi a 2,67% e superou o rendimento dos títulos de 30 anos (2,57%). Foi a primeira inversão neste ponto da curva desde 2006. Ontem, novamente o movimento se repetiu. E não foi o único. Os retornos dos títulos de 2 anos e 10 anos também se inverteram por breve um momento, mas mantiveram-se próximos. É a primeira vez que isso ocorre desde 2019.

Na prática, os títulos de prazos mais longos são mais arriscados que os de curto prazo. Os investidores exigem um rendimento maior para suprir os riscos de aumento de inflação e de juros no período. Quando essa lógica se inverte, o sinal é de que uma recessão pode estar a caminho. 

Nas últimas décadas, o fenômeno de inversão na curva dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano tem sido visto como um alerta para dias difíceis na economia dos EUA. Estudo do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) mostra que durante os anos de 1955 e 2018 todas as recessões da economia dos Estados Unidos foram precedidas de uma inversão na curva dos títulos. 

"É definitivamente possível afirmar que os Estados Unidos estão mais próximos de uma recessão", afirma o professor de Finanças da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, Paolo Pasquariello.

Segundo ele, historicamente, uma curva de juros invertida tem sido associada a recessões por duas razões. A primeira é que taxas de curto prazo mais altas podem esfriar a economia. A segunda, explica Pasquariello, é pelo fato de que taxas de longo prazo sugerem que os investidores esperam que as condições econômicas futuras se deteriorem e que os juros têm de ser mais baixos para estimular a economia.

O Federal Reserve tenta convencer o mercado de que a probabilidade de esse risco de recessão se materializar não é alta. Mas grandes bancos de Wall Street têm revisado para cima as projeções para os juros básicos nos EUA, ao mesmo tempo em que as estimativas para o crescimento da economia são cortadas para baixo em meio à inflação crescente, e que foi agravada pela guerra na Ucrânia.

Aperto monetário

Os investidores estão preocupados que o aperto monetário capitaneado pelos bancos centrais para combater a inflação elevada traga problemas para as economias além dos impactos da guerra na Ucrânia e da pandemia. Para a consultoria Oxford Economics, as chances de uma recessão nos Estados Unidos aumentaram, mas a economia tem musculatura suficiente para suportar os aumentos de juros previstos para este ano. "O risco maior é para 2023", diz o economista sênior da Oxford Economics, Bob Schwartz.

Nos EUA, o Fed tem dito que irá combater os preços altos da economia local com rigor, e tem feito o mercado se mover nesta direção. Recentemente, Goldman Sachs, Citi e Bank of America (BofA) elevaram novamente suas projeções para os juros básicos nos EUA, os Fed Funds.

Já as estimativas para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) norte-americano têm sofrido revisões para baixo em meio à guerra da Ucrânia. Até mesmo o Federal Reserve prevê que a economia dos EUA não seja tão pujante em 2022 e cortou sua estimativa de uma alta de 4,0% para 2,8% na reunião de política monetária deste mês.

"Não vemos um processo de recessão no curto prazo (nos Estados Unidos). As questões de aumentos de juros e as decisões a serem tomadas passam a levar em consideração não só o mercado americano, mas o impacto de todos os fatores globais", diz o presidente do Citi no Brasil, Marcelo Marangon. "Há muitas variáveis", acrescenta.

De acordo com Pasquariello, da Universidade de Michigan, a inversão da curva de juros também pode estar sendo induzida por uma busca dos investidores por proteção da elevada inflação nos EUA. Eles saem dos títulos de curto prazo e vão para ativos mais arriscados como, por exemplo, ações, o que reduz a demanda e eleva os rendimentos, induzindo uma inversão na curva de juros.

A presidente da distrital do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) em Kansas City, Esther George, demonstrou hoje preocupação com a inversão da curva de juros dos Treasuries. Segundo ela, não está relacionada à capacidade desse fenômeno de prever uma recessão, mas com "implicações para estabilidade financeira, com um comportamento de corrida por retornos".

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