Polícia Civil
Polícia Civil

Custo com ataques de piratas vai direto para o frete

Além de arcar com prejuízo com roubo de cargas, empresas que atuam na Amazônia também têm gastos milionários com a contratação de serviços privados de vigilância

Karla Mendes, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2017 | 05h00

PORTO VELHO - A conta dos ataques de piratas a embarcações de transporte de carga na Amazônia é bem maior que o prejuízo de R$ 100 milhões estimado com o roubo de mercadorias. Para evitar e se proteger dos criminosos, empresas de transporte têm reportado um custo adicional de milhões de reais por ano com a contratação de empresas de vigilância e escolta armada. A conta, essencial para a proteção das cargas, é repassada ao frete e, mais adiante, ao consumidor.

Uma das líderes no setor de cargas na região, a Transportes Bertolini (TBL) gasta cerca de R$ 4 milhões por ano com o serviço para proteger cargas de eletrônicos da Zona Franca de Manaus no trajeto de Belém a Santarém. “É um problema muito sério na Amazônia. No Estreito de Breves (canal fluvial de acesso ao Arquipélago do Marajó), até mataram um comandante”, diz Irani Bertolini, dono da TBL e presidente da Fetramaz, entidade que reúne as empresas de transporte na Região Amazônica.

Dois profissionais fardados e armados viajam a bordo nos comboios e trabalham em regime de revezamento, fazendo uma ronda nas embarcações. Nos trechos de maior incidência de ataques piratas, ambos ficam em alerta. Ao todo, 40 profissionais prestam serviço para a TBL.

Antes da contratação do serviço, em 2015, a empresa havia sido alvo de seis ataques de piratas que resultaram em prejuízo de R$ 500 mil, sobretudo com roubo de combustível. Os piratas chegam em barcos menores e velozes e atacam de surpresa. “É a linha vermelha da Amazônia. O risco é iminente”, diz Ricardo Bonatelli, gerente de navegação da TBL. Após a empresa contratar os serviços de escolta armada, no entanto, os ataques cessaram.

A companhia de vigilância Prosegur teve alta de 30% na demanda por seus serviços de 2016 para cá, principalmente no Amazonas e no Pará, segundo o diretor Bruno Jouan. À medida que os “piratas amazônicos” ficam mais ousados, a companhia também renova seu “portfólio” – agora, está usando drones para monitorar cargas.

Em busca de segurança, no entanto, as empresas têm procurado o serviço de cabotagem, que representa quase 90% do transporte de mercadorias de valor agregado da Zona Franca de Manaus. Segundo Eduardo Carvalho, presidente do Sindicato dos Armadores do Pará (Sindarpa), isso tem tirado algumas empresas de transporte fluvial comum de circulação.

“Apesar de a cabotagem ser mais lenta, ela é mais segura. O contêiner sai da fábrica e chega ao destino final com mais segurança do que o caminhão em cima da balsa e depois por estrada”, diz Claudomiro Carvalho Filho, vice-presidente do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial do Amazonas (Sindarma).

O delegado Geraldo Pimenta Neto, superintendente regional da Polícia Civil de Marajó Ocidental, no município de Breves, afirma que os casos de roubo de carga na região têm diminuído com a vigilância privada e a intensificação do monitoramento pelo Grupamento Fluvial de Segurança Pública no Pará (GFLU), formado pelas polícias civil e militar e pelo Corpo de Bombeiros.

À frente das operações da polícia civil em dez municípios na região das Ilhas de Marajó desde dezembro, o delegado disse que com o aumento do policiamento, os piratas migraram para roubos a residências e estabelecimentos nas margens dos rios, sobretudo em busca de óleo diesel.

Seguro. Outro problema é a dificuldade de se fazer o seguro de cargas. “Ninguém consegue fazer seguro de roubo de carga na Amazônia. Quando a seguradora aceita, o preço é impagável”, afirma Carvalho. Procurada, a Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg) informou não ter dados sobre essa situação de seguros na Amazônia.

Outra consequência é o fracionamento da carga em várias embarcações – o que também pesa no frete. “São custos que atentam contra o desenvolvimento da Amazônia”, afirma Getulio Bezerra Santos, coordenador do Programa de Segurança das Operações de Transporte de Cargas e Prevenção ao Delito (Proteger), da Confederação Nacional do Transporte. A meta é construir uma base de dados sobre pirataria pelos boletins de ocorrência, criando um sistema interligado de dados.

Adalberto Tokarski, diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários, afirma que os ataques piratas preocupam o órgão regulador. “É algo bastante complexo e já estive conversando com algumas instituições, incluindo a Polícia Federal e a Marinha, para ver qual é a solução para desmantelar e inibir essas ações.” Um dos principais entraves para coibir esse crime é a jurisdição dos órgãos de segurança, pois algumas áreas são de competência de órgãos estaduais e outras, de entidades federais. “É necessário criar ações coordenadas de inteligência”, defende Tokarski.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

Karla Mendes, especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2017 | 05h00

O tráfico de drogas é um componente explosivo para o aumento da pirataria e violência na Amazônia. O trecho do Rio Solimões entre as cidades de Coari e Tefé, no Amazonas, dominado por piratas, é o mais violento entre os rios da Amazônia, por causa dos carregamentos de drogas que vêm da Colômbia e do Peru.

“Eles ficam na espreita para ver os traficantes com droga, assaltam esses traficantes, matam para não deixar vestígio nenhum, pegam a droga e vendem para os adversários”, revela Mauro Sposito, delegado de Polícia Federal aposentado, especializado em crime organizado, e assessor da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas. Quando não têm droga, as embarcações têm que pagar um ‘pedágio’ de 2 mil litros de combustível.

“Marinha, Polícia Federal e Forças Armadas apreendem droga o tempo todo… Os traficantes passaram a descer mais armados para proteger a carga”, afirma Sergio Fontes, secretário de Segurança Pública do Amazonas.

Várias operações da Polícia Militar, em conjunto com o sindicato dos armadores, também têm sido feitas para tentar conter os ataques no trecho. Para fiscalizar as embarcações que navegam pelo Solimões, foi instituída a Base Anzol, que funciona 24 horas por dia na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, para tentar conter crimes como o narcotráfico internacional, contrabando e a violência na região. Também tem sido feita a compra de material bélico para aumentar o patrulhamento na área.

No entanto, Fontes teme que a desmobilização das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) aumente o nível de violência na região. “A polícia colombiana já encontrou vários locais cavados na terra com armamento, droga e dinheiro. Nosso medo é ter cada vez mais mercenários das Farc protegendo droga e o nível de enfrentamento aumentar”.

Segundo Fontes, o Alto Solimões está cada vez mais perigoso. “O Exército teve combates com traficantes na fronteira. Quando começam a enfrentar o Exército, é porque a coisa está bem perigosa.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Karla Mendes, especial para o Estado, Impresso

24 Julho 2017 | 05h00

O transporte pirata de cargas e passageiros é outra ameaça à economia da Amazônia. Na fronteira de Rondônia com Bolívia, entre as cidades de Guajará-Mirim e Guayaramerín, um porto ilegal funciona em um barranco a poucos metros da travessia oficial. Passageiros, gasolina e até drogas e armas são trazidos de forma clandestina para o lado brasileiro.

Empresários que operam na travessia oficial queixam-se que o transporte ilegal derrubou em 40% o movimento de passageiros. “A concorrência ilegal cresce cada vez mais. Eles estão vendo que é bom um negócio porque não trazemos passageiros de lá, só levamos”, reclama Oscar Daniel Milán Franco, administrador da travessia e dono da Aquavia, uma das seis empresas que operam no trecho. Ele diz ter denunciado o caso a autoridades, sem retorno.

Mesmo na travessia oficial, a fiscalização é frágil. O Estado cruzou a fronteira em junho e o scanner do posto da Receita Federal, destruído na enchente de 2015 e reinaugurado em maio, não estava funcionando.

Autoridades reconhecem dificuldades para fiscalizar os 364 km de fronteira fluvial com a Bolívia. Adalberto Tokarski, diretor-geral da Agência Nacional de Transportes Aquaviários, afirma que a agência tem fiscalizado a área oficial. Mondardo Júnior, superintendente da Receita na 2.ª Região Fiscal, afirma que o órgão tem feito operações regulares para coibir o contrabando, que resultaram em apreensões de R$ 800 mil em mercadorias no primeiro semestre. Por meio de nota, a Marinha informou que recebeu denúncias sobre a travessia ilegal e que a Agência Fluvial de Guajará-Mirim tem feito inspeções no local, com a Polícia Federal e a Receita. “Desde então, não foram recebidas outras denúncias”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.