Custo da alta do dólar continua sendo repassado, diz IBGE

Os aumentos de custos provocados pela alta do dólar no ano passado continuam sendo repassados pelas empresas para os consumidores, e por isso a inflação medida pelo IPCA permanece elevada em março. A explicação foi dada pela gerente do Sistema de Índices de Preços do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), Eulina Nunes dos Santos, na entrevista que ela convocou para falar sobre os números do IPCA de março."Não acredito em inércia inflacionária, porque as características da inflação no ano passado e neste ano têm um motivo muito claro: o aumento de custos via dólar", disse. Eulina argumentou que historicamente desvalorizações da moeda local frente ao dólar têm impacto inicialmente sobre os alimentos, ocorrendo de forma mais gradual sobre os demais produtos.Ela exemplificou que, enquanto produtos alimentícios diretamente vinculados à moeda norte-americana passaram a registrar aumentos significativos desde julho do ano passado, como a farinha de trigo, os artigos de limpeza, com efeito indireto, só subiram com mais força a partir de setembro. Segundo ela, os efeitos do dólar sobre os alimentos "estão ficando para trás", mas não é possível saber até quando ainda ocorrerão repasses em outros produtos. Eulina disse também que as conseqüências da queda do dólar nas últimas semanas não vão ocorrer imediatamente sobre a inflação ao consumidor. "Esses impactos não são imediatos, pode ser que o repasse do dólar passado continue por algum tempo, inclusive em itens indexados por contratos, como preços administrados". Remédios, tomate e transportesA elevação de 1,23% na inflação medida pelo IPCA em fevereiro sofreu impacto de vários itens alimentícios e não alimentícios, com destaque, por ordem de contribuição para a taxa, para os reajustes dos remédios (4,58%), tomate (57,35%), ônibus urbanos (1,75%), água e esgoto (4,12%), telefone fixo (1,78%), higiene pessoal (2,20%) e artigos de limpeza (3,80%). Os remédios refletiram o reajuste de 8,63% para 2.700 medicamentos ocorrido em fevereiro. O tomate vem sofrendo os efeitos de uma praga nas lavouras provocada pela chuva e já subiu 89,89% neste ano. Eulina Nunes dos Santos chama atenção para o fato de que um quilo de tomate já custa em torno de R$ 4,00 o mesmo preço da mesma quantidade de frango, por exemplo. Os ônibus urbanos reduziram bastante a alta de fevereiro (5,91%) para março, mas houve resquícios de reajustes ocorridos em várias regiões no primeiro bimestre. As taxas de água e esgoto subiram em Porto Alegre, Belo Horizonte, Brasília e Salvador, entre as 11 regiões pesquisadas pelo IBGE. Os artigos de limpeza e higiene pessoal, segundo Eulina, ainda sofrem repasses das altas de custos nos insumos provocadas pelo dólar. O sabão em pó, por exemplo, já subiu 12,21% neste ano. Alimentos interrompem desaceleraçãoOs produtos alimentícios interromperam a desaceleração de reajustes de preços iniciada em dezembro do ano passado e voltaram a subir em março (1,66%), ante 1,22% em fevereiro, com contribuição de 0,39 ponto porcentual no IPCA de 1,23% do mês. O aumento ocorreu apesar da entrada da safra que reduziu preços de produtos importantes como arroz (-1,25%) e feijão preto (-1,91%) e da queda nos preços que vinham subindo por causa do dólar, como óleo de soja (-0,85%) e farinha de trigo (-1,99%). Eulina Nunes dos Santos explicou que o impacto no grupo dos alimentícios foi dado por hortigranjeiros, sensíveis aos problemas climáticos. As maiores altas ocorreram no tomate (57,35%), cebola (22,46%), cenoura (8,98%), açúcar cristal (6,13%) e pescados (4,63%, sob efeito do aumento da demanda para a Páscoa). Transportes e energia pesarão em abril A inflação medida pelo IPCA em abril sofrerá impactos de vários aumentos de transportes ocorridos no Rio de Janeiro - 7,7% nos ônibus urbanos, 16,5% nos ônibus intermunicipais e 28% no metrô -, além dos reajustes de energia elétrica em Recife (25% em 30 de março) e Belo Horizonte (31,5% em oito de abril). Eulina Nunes dos Santos disse que não é possível antever se o "dólar passado" continuará tendo impacto sobre alguns produtos, como ocorreu em março. Segundo ela, haverá em abril os impactos positivos da comercialização da safra agrícola sobre a inflação, mas é possível que a queda do dólar das últimas semanas não reduza preços. "A queda do dólar também pode ser positiva, mas o efeito não é imediato no varejo, porque estoques e matérias-primas foram adquiridos na cotação anterior da moeda e ainda poderão ocorrer repasses", disse. Os números do IPCA de marçoOs números do IGP-DI da Fundação Getúlio VargasOs números do IPC da Fipe da USP (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas)

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