Custo social e preço do seguro

Com o grande número de pessoas que perdem a vida no País por causa de acidentes, alta criminalidade e falta de políticas de saúde, não há como cortar o preço do seguro

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2016 | 17h08

Agora é oficial. O Brasil tem praticamente 60 mil assassinatos por ano. É número para ninguém colocar defeito. Uma comparação rápida com os 3.500 mortos em 2015 na guerra do Afeganistão deixa claro que a situação é dramática. No entanto, as pessoas se sensibilizam com os mortos do Afeganistão, sem se dar conta de que a nossa realidade é muito pior.

Somando-se a este número estapafúrdio os quase 60 mil mortos pelo trânsito todos os anos, temos um cenário de terra devastada. 120 mil mortos por ano é o dobro do total dos soldados norte-americanos mortos em 10 anos de guerra no Vietnã. Ou, numa comparação ainda mais apavorante, a cada cinco anos, o Brasil tem um número de mortos, apenas por homicídio doloso e pelo trânsito, equivalente ao total de norte-americanos mortos na Segunda Guerra Mundial.

De verdade, esta conta é muito pior. Nela devem ser incluídas as vítimas de homicídios culposos, aqueles em que não há a intenção de matar. Assim como devem ser incluídas as mulheres que morrem em decorrência de abortos clandestinos. E os que perdem a vida em função do uso de drogas.

E devem ser contados os milhares de mortos por falta de atendimento, descaso e erro médico, em função do desmantelamento da rede pública de saúde. Como devem ser contabilizados milhares de crianças que morrem antes de atingir os dois anos, pela falta de assistência social, a mais rudimentar.

Da mesma forma que não podem ser esquecidos os que perdem a vida por falta de vacinas, pelo descaso no combate às epidemias e endemias, entre as quais dengue, chicungunya e zika são apenas a ponta do iceberg.

O rol é maior, mas apenas estes números são suficientes para mostrar de forma insofismável o alto custo das mortes evitáveis para a nação brasileira. Mas, se as mortes são uma tragédia, há outra tragédia eventualmente ainda mais dolorosa. As vítimas desta carnificina que, em vez de morrerem, ficam permanentemente inválidas. Eu não sei o número total, mas apenas o seguro obrigatório de veículos, o DPVAT, paga mais de 600 mil indenizações por invalidez decorrente de acidentes de trânsito todo os anos. E a soma das indenizações por morte e invalidez em acidentes de trânsito pagas anualmente pelo seguro obrigatório atinge a casa de alguns bilhões de reais.

Mas, se o tamanho da tragédia do ano passado é difícil de ser compreendido, é mais difícil ainda perceber que o drama se repetirá este ano, e no ano que vem, e no ano seguinte e que, por isso, os números não são estáticos, mas aumentam em proporções gigantescas. Por exemplo, se em um ano temos 600 mil inválidos, em dois anos, apenas o trânsito terá gerado um milhão e duzentos mil inválidos. E assim sucessivamente, numa soma que nunca acaba, nem apresenta qualquer sinal concreto de redução, principalmente porque não há nenhuma política consistente para mudar a situação. No máximo o que se vê é alguma propaganda e muito discurso.

O custo social e para a sociedade é brutal. São bilhões de reais anualmente gastos para fazer frente a morte e invalidez de centenas de milhares de pessoas que poderiam ter outro destino. Quem paga esta conta é uma sociedade pobre, que piora o quadro ao não conseguir oferecer atendimento eficiente a um grande número de vítimas e menos ainda para as famílias.

No campo dos negócios, o setor de seguros é diretamente afetado por este quadro. Já escrevi outras vezes, não é apenas o seguro de vida e acidentes pessoais ou o seguro obrigatório de veículos que suportam os prejuízos.

Grande parte dos acidentes de trânsito com vítimas causa danos de monta nos veículos envolvidos. Parte dos assassinatos acontece em função de outros crimes, como roubos e furtos, que afetam o patrimônio das pessoas e empresas. E os planos de saúde privados são pesadamente afetados por praticamente todas as situações elencadas. Neste cenário, agravado pela baixa penetração do setor na sociedade, não há como seguro custar barato. 

ANTONIO PENTEADO MENDONÇA É SÓCIO DE PENTEADO MENDONÇA E CHAR ADVOCACIA E SECRETÁRIO GERAL DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

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