CUT quer o governo Lula fora das negociações da Alca

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) defendeu nesta quarta-feira que o governo de Luiz Inácio Lula da Silva abandone as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Em um sinal de que não aceitará todas as decisões do novo governo, apesar da histórica ligação entre o PT e a central sindical, o diretor de relações internacionais da CUT, Kjeld Jacobsen, argumentou que a Alca não apresenta possibilidade de vantagem para o Brasil e que, portanto, esse acordo seria contraditório com a agenda de crescimento econômico defendida por Lula. Jacobsen participou hoje, em Quito, no Equador, da Jornada de Resistência Continental contra a Alca, um dos eventos do Fórum Social que está sendo realizado em Quito paralelamente à reunião de ministros. "Há diferença entre o sindicalismo e o governo do PT, por melhores que sejam as relações que tenhamos. Nós, da CUT, preservamos nossa autonomia", afirmou Jacobsen, ao ser questionado sobre a recente mudança do discurso do PT, que agora assumiu uma linha mais tolerante e aberta às negociações da Alca. "A Alca apresenta mais desvantagens que vantagens para o Brasil, principalmente para setores que são geradores de empregos. Para nós, esse acordo vai custar postos de trabalho e, por isso, achamos que o governo deva sair das negociações".Em seu ponto de vista, o futuro governo poderá contornar uma das falhas da atual administração caso exponha à sociedade quais são, pontualmente, suas metas em relação à Alca - assim como os Estados Unidos vêm fazendo nos últimos anos. Se o governo Lula vier a deixar claro onde quer ganhar e onde está disposto a abrir concessões, Jacobsen acredita que a Alca não interessará mais aos Estados Unidos e, portanto, será abortada. "Se Lula implementar a agenda de crescimento econômico que vem defendendo, a Alca não caberá nela. As condições que o Brasil apresentar tampouco seriam aceitas pelos Estados Unidos", afirmou.Nesta sexta-feira, os participantes do Fórum Social deverão marchar pelas ruas centrais de Quito em protesto contra a Alca e em defesa de um projeto alternativo de integração das Américas, mais voltado para uma agenda de desenvolvimento e de ação social. O ponto final das manifestações será o hotel onde transcorrem as negociações preliminares para a reunião dos ministros dos 34 países, sob forte proteção policial. Em São Paulo, antes de se reunir com Lula, o presidente da Central, João Felício, afirmou hoje que a sociedade brasileira será surpreendida com um novo conceito de negociação permanente, iniciada pelo presidente eleito, com os movimentos sindicais. No entanto, ele negou que a CUT negocie uma trégua com o governo eleito. "Não seremos instrumento do esquerdismo infantil, nem da direita desavergonhada, que farão alianças para desestabilizar o futuro governo", afirmou.O presidente da CUT disse que não abrirá mão das reivindicações históricas da central, entre elas, a reposição das perdas salariais. "O que conversamos hoje é a criação de uma nova relação entre a Presidência da República com os movimentos sociais", disse Felício.

Agencia Estado,

30 de outubro de 2002 | 21h28

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