Cutrale e Grupo Safra fazem oferta para comprar Chiquita Brands, dos EUA

Chiquita, sediada na Carolina do Norte, tenta fechar acordo de fusão com a Fyffes, de Dublin, na Irlanda, anunciado em março

Altamiro Silva Júnior e Marina Gazzoni, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2014 | 14h09

A fabricante de suco de laranjas Cutrale e o grupo Safra fizeram uma proposta “não solicitada” de aquisição de 100% da americana Chiquita Brands, dona de 22% do mercado mundial de bananas. As empresas brasileiras ofereceram US$ 625 milhões pela americana. A cifra supera em US$ 99 milhões a avaliação feita pela irlandesa Fyffes, com quem a Chiquita está em processo de fusão desde março para dar origem à maior produtora de bananas do mundo. 

Os grupos brasileiros defendem que os acionistas da Chiquita desistam da fusão com a Fyffes e aceitem vender a companhia a eles. “Essa proposta representa um elevado prêmio de 29% sobre a avaliação de mercado da transação com a Fyffes, considerando o preço da ação em 8 de agosto”, diz a carta enviada ao presidente executivo da Chiquita, Edward Lonergan, e à presidente do conselho, Kerrii Anderson. O documento é assinado por Michael Rubinoff, ex-executivo do Bank of America e que trabalha no grupo Safra, do banqueiro brasileiro Joseph Safra.

Dona de um faturamento anual de US$ 3 bilhões, a Chiquita está presente em 70 países, com 20 mil trabalhadores. A marca é famosa pela produção de bananas, mas também vende abacaxi, maçãs, saladas prontas e alimentos processados a base de frutas. “A aquisição da Chiquita é mais um passo da diversificação da Cutrale e tem sinergias com a produção de laranjas”, disse uma fonte do setor.

Há dois anos, a Cutrale começou a produzir grãos, como soja e milho, deixando de apostar todas as suas fichas no suco de laranja. A companhia diz ser dona de um terço do mercado mundial de suco de laranja, que movimenta US$ 5 bilhões por ano. O consumo, porém, vem caindo nos últimos anos ao perder espaço para outras bebidas.

Dez anos atrás, a população dos 40 principais mercados consumidores bebia 21,529 bilhões de litros de suco de laranja, segundo estudo da consultoria Markestrat. No ano passado, apesar do crescimento populacional nesses países e do aumento da renda, o consumo ficou em 18,4 bilhões de litros - queda de quase 15%. “A Cutrale certamente está preocupada com esse movimento e já busca diversificar mais seus negócios”, completou a fonte.

As demais fabricantes de laranja estão mais protegidas, pois já fazem parte de grupos diversificados. A Citrosuco pertence ao grupo Votorantim, dono de empresas de cimento a energia, e a Louis Dreyfus Commodities também está em outros ramos do agronegócios, além da produção de laranja.

À Chiquita, a Cutrale oferece “uma plataforma com vasta experiência em todos os aspectos da cadeia de produção de frutas e sucos”. 

Oferta ‘não solicitada’. A operação foi classificada como proposta “não solicitada” e tecnicamente não chega ser a uma oferta hostil - neste caso, a oferta é feita diretamente aos acionistas, sem passar pela diretoria da empresa. Fontes do mercado não descartam que Cutrale e Safra façam uma oferta hostil pela Chiquita se a diretoria recusar a proposta. Na carta, Safra e Cutrale dizem que é possível fechar a compra neste ano, no mesmo prazo previsto para a conclusão da fusão com a Fyffes.

As empresas brasileiras pedem que a administração da Chiquita responda à proposta até sexta-feira, às 13h (horário de Brasília). Em comunicado, a companhia disse que vai “avaliar cuidadosamente” a oferta e que “os acionistas da Chiquita são aconselhados a não fazer nada neste momento e aguardar a decisão da diretoria”. 

Procurada, a Cutrale não retornou o pedido de entrevista.

Sede. A carta de Cutrale e do Safra não menciona onde será a sede da empresa, se a proposta for aceita. A intenção da operação com a Fyffes, caso concluída, é levar a empresa para fora dos Estados Unidos para pagar menos impostos. A operação é chamada de “inversão” pelos banqueiros de Wall Street e têm sido comum nas fusões e aquisições anunciadas em 2014, provocando a ira da Casa Branca. Na semana passada, o secretário do Tesouro americano, Jacob Lew, afirmou que o governo busca medidas para impedir essa evasão fiscal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.