CVM inicia mais um processo contra a auditoria Deloitte

Depois dos casos Aracruz e Panamericano, empresa é questionada por operações com derivativos da Saraiva

Sabrina Valle, O Estado de S.Paulo

24 de fevereiro de 2011 | 00h00

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) abriu mais um processo contra a firma de auditoria Deloitte por suposta omissão ligada a uma operação com derivativos da Saraiva Editora, sua cliente. A Deloitte tem prazo até 18 de março para apresentar sua defesa e pode manifestar interesse em tentar um acordo com a CVM para se livrar do processo sem presunção de culpa.

O problema começou com um lapso da Saraiva, que em um primeiro momento considerou as operações não dignas de registro por seus valores irrisórios. A Saraiva corrigiu a informação em seu informe trimestral, e não é alvo de acusação pela CVM.

A Deloitte era responsável por auditar as contas da Saraiva e o xerife do mercado financeiro entendeu que a auditoria deveria ter emitido uma ressalva num relatório de revisão especial sobre a existência das operações, depois de corrigidas pela editora.

"O valor em questão é totalmente imaterial e estou surpreso de receber esse questionamento. E mais surpreso ainda de receber um processo por uma situação totalmente imaterial (de valor não relevante)", afirmou Wanderley Olivetti, sócio responsável pela área técnica de auditoria da Deloitte.

Olivetti alega ainda que não faz parte das funções do auditor revisar e confirmar esse tipo de informação num relatório trimestral. Segundo o executivo, as obrigações do auditoria são mais restritas no relatório trimestral do que no relatório anual.

Proteção cambial. As operações com derivativos foram usadas pela Saraiva como uma proteção cambial (hedge) para serviços editoriais extraordinários realizados no exterior. Os contratos foram fechados em dólar e poderiam expor a empresa caso houvesse variação significativa da moeda americana entre a contratação do serviço e seu pagamento.

Foram realizadas duas operações com derivativos, uma registrada em setembro de 2009 e outra em março de 2010, com saldos de R$ 79 mil e R$ 16 mil, respectivamente.

Mas, no fim da operação, essas contas acabaram sendo zeradas. "Não houve ganho nem perda", explicou o diretor financeiro e de Relações com Investidores da Saraiva, João Luís Hopp. "São operações apenas para proteger a empresa de oscilações no câmbio".

Em 2009, a Saraiva Editora registrou um faturamento líquido consolidado de R$ 1,317 bilhão.

PARA LEMBRAR

Depois de uma série de escândalos contábeis, a CVM lançou este ano uma ofensiva às firmas de auditorias, priorizando a área na rotina diária de fiscalizações.

O caso Saraiva não é o único da Deloitte na autarquia. A firma vai a julgamento no caso Aracruz, por suposta omissão sobre riscos de operações com derivativos, que levaram a perdas de cerca de R$ 2 bilhões. Vale ressaltar que são operações diferentes das realizadas pela Saraiva.

A Deloitte também auditava as contas do banco Panamericano e não percebeu a fraude bilionária de 2010. No passado, também foi processada no caso Parmalat, que quebrou em 2003 deixando um rombo de R$ 3 bilhões.

Outra grande empresa de auditoria com processos é a KPMG, que vai a julgamento no caso Sadia, numa situação semelhante à da Aracruz e que levou a perdas de R$ 2,5 bilhões. Em 22 de março, também será julgada por supostas irregularidades nos pareceres das demonstrações de fundos de direitos creditórios.

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