Nilton Fukuda / Estadão
Adriana faz cursos de especialização enquanto não surgem vagas de salários mais altos em sua área Nilton Fukuda / Estadão

Melhores vagas de emprego vão demorar a voltar

Trabalhadores que têm condições de esperar a situação melhorar aproveitam período ainda difícil para fazer cursos de atualização profissional

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 05h00

“Cansei de esperar o mercado melhorar”, resume a engenheira Adriana Mello, de 28 anos. “Parece que agora está mais fácil de arrumar um emprego, mas só parece. Não voltei a procurar o dia inteiro, como fazia antes, porque as vagas que aparecem têm remuneração de R$ 3 mil, quando o piso é três vezes mais. Querem que você tenha as mesmas responsabilidades de antes, sem ganhar o suficiente.”

Desde que Adriana perdeu o emprego, em maio do ano passado, ela passou a usar o tempo livre para fazer cursos e melhorar o inglês. Mas as contas, que eram divididas com o marido, pesam mais. “De 2015 para cá, o mercado piorou. Quem ganhava R$ 7 mil, agora topa ganhar R$ 3 mil. E quem pode esperar, aproveita para voltar ao mercado com mais formação.”

Na avaliação de especialistas, o número de desalentados – os trabalhadores que pararam de buscar emprego por um tempo – com maior formação deve cair lentamente, já que, na saída da crise, as vagas que têm surgido são de remuneração mais baixa. 

O desalentado é o brasileiro que gostaria de estar trabalhando, mas não tem incentivo para procurar trabalho por um período, seja pela dificuldade em se recolocar no mercado de trabalho ou porque as oportunidades que aparecem agora não são atrativas e ele pode esperar que as coisas melhorem. 

“Ele faz parte da força de trabalho potencial”, explica o economista Bruno Ottoni, pesquisador da consultoria IDados. “Em geral, o desalento cresce em um mercado de trabalho que não está funcionando direito. E na saída da crise, o número de pessoas nessa situação cresce porque as poucas vagas que reapareceram no mercado agora pagam pouco.” 

Ele lembra que o trabalhador, muitas vezes, acaba preferindo ficar em casa ou começar a fazer algum curso, fica mais ou menos em um compasso de espera até que surjam oportunidades.”

O também engenheiro Diogo Dutra da Silva, de 29 anos, está fora do mercado de trabalho desde a conclusão das obras de um edifício na zona leste de São Paulo, em 2017. “Trabalhava em uma construtora que viu as obras rarearem durante a crise. Em 2015, começou a diminuir a quantidade de projetos e o número de funcionários da empresa. Quando o prédio ficou pronto, perdi o emprego.”

Ele concorda que as vagas que surgiram entre o ano passado e o início de 2019 têm remuneração baixa demais, a ponto de compensar esperar mais um pouco. “Sempre fui de gastar pouco e durante o período de emprego farto, guardei dinheiro. Essa poupança me ajuda agora a não precisar aceitar qualquer vaga que for aparecendo”, diz. 

Baixa expectativa

Na semana passada, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou que os brasileiros que caíram no desalento atingiram média de 4,736 milhões – 13,4% acima de 2017. Nessa conta, entram os que se achavam jovens ou idosos demais, pouco experientes ou acreditavam que não encontrariam uma boa oportunidade de trabalho.

“Tem gente que já consegue encontrar o trabalho com carteira assinada mais facilmente do que há alguns meses, mas as condições nem sempre são boas. Se a pessoa pode esperar mais um pouco para conseguir um emprego mais próximo de suas expectativas, ela acaba se virando, conta com as economias ou ajuda de parentes e espera”, concorda o economista da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) Eduardo Zylberstajn. 

A expectativa do economista do Insper Renan de Pieri é de que o País gere mais empregos este ano do que em 2018, quando o desemprego cedeu apenas timidamente, e fechou o último trimestre em 11,6% – ante 13,1% do início do ano passado. 

“Mas a reinserção dessas pessoas no mercado de trabalho não vai ocorrer rapidamente. O Brasil formou um exército de desalentados, quando o mercado melhorar, eles vão voltar a procurar por emprego e precisarão ser reabsorvidos”, diz.

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Título Cresce número de mais escolarizados que desistem de procurar emprego

Desde 2014, quando o País entrou oficialmente em recessão, o total de trabalhadores mais qualificados – aqueles com pelo menos dez anos de estudo – que abandonaram a busca por uma vaga no mercado passou de 394 mil para 1,66 milhão

Douglas Gavras , O Estado de S. Paulo

03 de fevereiro de 2019 | 05h00

Desde que o Brasil entrou oficialmente em recessão, em 2014, o desalento – quando o trabalhador desiste de procurar emprego simplesmente por achar que não vai mais conseguir encontrar uma vaga – subiu a pirâmide social. O número de trabalhadores com maior nível de escolaridade que entrou nessa categoria aumentou exponencialmente.

No terceiro trimestre do ano passado, o total de pessoas que estudaram por dez anos ou mais (que é o equivalente a ter ao menos iniciado do o ensino médio) e tinham parado de buscar trabalho era de 1,66 milhão, de acordo com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua. No terceiro trimestre de 2014, esse número era de 394 mil pessoas.

Isso quer dizer que mais de 1,27 milhão de trabalhadores bem qualificados, em plena idade produtiva, caíram no desalento de 2014 até setembro do ano passado, pelos números da pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), compilados pela consultoria IDados. Em 2012, o primeiro ano da Pnad, os trabalhadores com maior formação eram 26% dos desalentados. Agora, eles já chegam a 35%.

O porcentual de brasileiros mais escolarizados que desistiram de buscar um emprego começou a crescer em 2015 e avançou sete pontos porcentuais em apenas três anos.

Segundo especialistas ouvidos pelo Estado, esse movimento é ruim porque indica que mesmo as pessoas com maior qualificação estão pessimistas com o mercado de trabalho. Um dos motivos para esse desânimo é que, na saída da recessão, as vagas de emprego criadas são, em sua maioria, de baixa remuneração, muitas vezes informais – foi isso que sustentou a pequena queda da taxa de desemprego no ano passado. Puxada exatamente pelo aumento da informalidade, a desocupação caiu de 13,1%, no início do ano, para 11,6%, no fim de dezembro. 

Padrão

 Além disso, como esses trabalhadores que acumularam anos de estudo tinham salários maiores antes do desemprego, quando o desalento chega a esse grupo, a renda familiar é mais prejudicada, analisa Bruno Ottoni, da IDados. “São pessoas mais qualificadas e com um padrão de vida melhor, que desistiram em algum momento de procurar emprego.” 

Por estarem em uma situação mais frágil no mercado de trabalho, ganharem menos e estarem mais sujeitos a perder o emprego, os brasileiros com menor formação ainda são a maioria em situação de desalento, mas a presença deles entre os que desanimaram de procurar uma vaga caiu de 73%, no terceiro trimestre de 2014, para 65% no terceiro trimestre do ano passado.

 

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