Da África, Lula discute retomada de Doha com Bush

Por telefone, líderes decidiram voltar a discutir as tarifas de importação de bens industrializados e os subsídios

Leonencio Nossa, enviado especial, Agencia Estado

17 de outubro de 2007 | 09h16

Por telefone, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a discutir sobre a Rodada Doha com o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Numa conversa de meia hora, na última terça-feira, 16, os dois avaliaram a possibilidade de reabrir as negociações sobre redução de tarifas de importação de produtos industrializados e subsídios agrícolas, segundo informação do ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim.   Veja também: Lula propõe livre-comércio entre Mercosul, África e Índia   Na última terça, Lula propôs que países em desenvolvimento, como o Brasil, flexibilizassem tarifas de importação de produtos industrializados e, por sua vez, os países ricos, reduzissem os subsídios agrícolas. "O que quero é um grande acordo para que a UE facilite a entrada dos produtos dos países mais pobres e os Estados Unidos diminuam a quantidade de subsídios na agricultura interna. E os países em desenvolvimento, como o Brasil, flexibilizem seus produtos industriais", disse o presidente brasileiro.   Em entrevista nesta quarta-feira, 17, Amorim disse que Bush "entendeu" a mensagem do governo brasileiro, que está disposto a reduzir as tarifas de importação dos produtos de países desenvolvidos, desde que os EUA e a Comunidade Econômica Européia apresentem propostas claras de diminuir o subsídio agrícola concedido a seus produtores. "Não sei se o presidente Bush concorda", afirmou Amorim.   O chanceler brasileiro relatou que Lula e Bush, durante a conversa, não comentaram a decisão recente da Organização Mundial do Comércio (OMC) de exigir o fim do subsídio dos EUA a seus produtores de algodão. "A gente não ia ficar tocando na ferida", disse Amorim. Sobre a possibilidade de o Brasil ceder em alguns pontos para destravar as negociações, o ministro brasileiro disse: "Eles não podem ficar cobrando de nós clareza em troca de uma coisa obscura. Para nós, é muito importante que eles deixem claro o caso dos subsídios à soja e ao algodão", completou.   Amorim avaliou que o G-20, grupo dos países emergentes, mudou de forma definitiva as negociações na OMC. "Os europeus querem fazer um acordo de cavalheiros com os Estados Unidos, e nós pagamos a conta", disse. "Mas não é assim e nunca mais será assim."   Flexibilização   O presidente brasileiro adiantou que a flexibilização não pode causar danos às indústrias dos países emergentes. "Os países que estão em desenvolvimento agora não podem abdicar de sua indústria. O problema é que essa flexibilização tem que ser proporcional a cada país."   O comentário foi, segundo os diplomatas, uma referência à Argentina - um dos países mais inflexíveis na rejeição da idéia de reduzir as tarifas sobre produtos industrializados. Bush, de acordo com o relato dos diplomatas, disse que o Brasil precisa avançar nas discussões para destravar a Rodada de Doha, e brincou: "Eu vejo que você (Lula) está afiado. Está tão afiado que eu estou me sentindo um estudante."   Lula iniciou sua participação na 2ª Reunião de Cúpula do Fórum de Diálogo Brasil-Índia-África do Sul (Ibas), nesta quarta, durante sua viagem pela África, com comentários sobre futebol e novas críticas aos subsídios agrícolas concedidos pelos EUA e pela UE aos seus produtores.   Ele ressaltou a importância de um bom entendimento entres os países emergentes na disputa com os desenvolvidos no âmbito da Organizacão Mundial do Comercio (OMC). "Pouco vale sermos convidados para a sobremesa no banquete dos poderosos", disse o presidente brasileiro.   Na parte do encontro da Ibas aberta à imprensa, o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, não citou diretamente as disputas na OMC, mas cobrou maior integração entre os três países no debate de medidas que podem resolver o problema da pobreza. "Os três países devem atuar mais em conjunto para solucionar o problema da miséria", disse. Já o anfitrião do encontro, o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, usou o microfone para pedir, gentilmente, que os jornalistas deixassem a reunião.   Matéria ampliada às 10h32 para acréscimo de informações

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