Da Bolsa à agricultura, é tudo uma bolha só

Bancos Centrais criam ‘dinheiro do ar’ e inflam os preços em todo o mundo, de títulos da dívida da Espanha a imóveis em Nova York

Neil Irwin, THE NEW YORK TIMES

08 de julho de 2014 | 21h07

Na Espanha, onde há apenas dois anos havia uma crise da dívida, os investidores estão tão ansiosos para comprar títulos do governo que, recentemente, aceitaram os juros mais baixos desde 1789.

Em Nova York, o arranha-céu art déco na One Wall Street foi vendido em maio por US$ 585 milhões. Apenas três meses depois, a estimativa de um boletim do setor imobiliário era de que seria vendido por US$ 466 milhões. Na França, uma empresa de TV a cabo chamada Numericable conseguiu recentemente levantar um empréstimo de cerca de US$ 11 bilhões, o maior negócio em títulos especulativos já registrado - e apesar do risco deste tipo de títulos, o juro foi apenas 4,875%.

Bem-vindos ao Boom Total - e, possivelmente, à Bolha Total. Globalmente, quase todos os ativos são caros em termos históricos. Não interessa o que, nem onde. Ações e títulos. Mercados emergentes e economias avançadas. Edifícios de escritórios urbanos e terrenos agrícolas do Iowa. O que quer que se possa imaginar está sendo negociado a preços elevados pelos padrões históricos em relação aos fundamentos. O inverso disso são retornos relativamente baixos para os investidores.

O fenômeno decorre de duas forças inter-relacionadas. No mundo, há muito mais dinheiro indo para as poupanças do que as empresas acham que poderão usar em investimentos produtivos. Ao mesmo tempo, os principais bancos centrais há seis anos fazem campanha para manter os juros baixos, e criando mais dinheiro do ar, na tentativa de estimular o crescimento depois da crise financeira. 

"Estamos num mundo em que há pouquíssimos ativos inequivocamente baratos", disse Russ Koesterich, estrategista-chefe da BlackRock, uma das maiores gestoras de ativos do mundo, que se dedica a vasculhar o mundo em busca de oportunidades que ofereçam aos investidores o melhor retorno em relação ao risco. "Se você me pedir como encontrar um bom negócio lá fora, não tenho certeza de que encontrará algum."

Riscos. Mas por mais frustrante que a situação possa ser para os investidores, que esperam melhores retornos, a questão mais importante para a economia global é o que acontecerá a seguir. Quanto tempo durará este ambiente de baixos retornos? E que riscos poderiam surgir que só poderiam ser percebidos se e quando o Boom Total acabasse? Ativos seguros, como os títulos do Tesouro dos EUA, oferecem aos investidores retornos insignificantes há anos, desde o início da crise global. O que mudou nos dois últimos anos é que ativos de risco, como ações, títulos especulativos, imobiliários e de mercados emergentes, fizeram o mesmo.

Querem comprar ações de empresas americanas? No atual patamar do Índice S&P 500, cada dólar investido em ações compra cerca de 5,5 centavos de dólar em lucros corporativos, em comparação a 7,4 centavos há dois anos - e menos que antes da crise global de 2008.

Preferem um ativo mais sólido? O preço de edifícios de escritórios e de apartamentos subiu na mesma proporção; o espaço para escritórios nos bairros empresariais centrais em toda a nação custa em média US$ 300 o pé quadrado (um pé quadrado corresponde a 0,09 metro quadrado), em comparação a US$147 no início de 2010, segundo a Real Capital Analytics. Em Manhattan, quem investiu num edifício de escritórios pode prever que os aluguéis vão trazer um retorno de 4,4%, conhecido como taxa de capitalização, inferior ao de 2007, o ápice do último boom.

E os investimentos no exterior? Espanha e outros países do Sul da Europa que estiveram no centro da crise da dívida não são os únicos lugares em que os juros despencaram (até a Grécia conseguiu emitir títulos a juros favoráveis no início do ano). Os mercados emergentes, que em geral têm juros maiores por causa de uma inflação mais elevada e de sua menor estabilidade política, também estão oferecendo juros baixos recordes. Os títulos emitidos pelos governos do Brasil e da Malásia proporcionam um retorno relativamente baixo de cerca de 4%.

As altas valorizações agora não chegam aos extremos das alcançadas pelas ações em 2000 ou dos preços das casas em 2006. A novidade agora é que se aplicam a toda variedade de ativos. Em 2000, quando o mercado acionário era uma bolha especulativa, outros ativos como títulos, investimentos nos mercados emergentes e em imóveis pareciam razoáveis. / Tradução de Anna Capovilla

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