Da bruxaria na governança só nasce o caos

"O PT desmoralizado ainda é um mal menor que o inimigo principal: os neoliberais". A frase não é minha. É do artigo do Arnaldo Jabor de terça-feira. Acho também que não é dele, pois estava entre aspas no artigo.

Marco Antonio Rocha*, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2014 | 02h11

Mas reflete a opinião de muitos eleitores brasileiros que não são petistas nem pessedebistas, mas que concordam em geral com a teoria de que o imperialismo ianque é o Grande Satã do mundo moderno. Não só nos partidos de esquerda, mas num amplo leque da opinião pública, convencionou-se que o neoliberalismo - seja lá o que for - foi parido pelo Grande Satã. Por conseguinte, neoliberais estão, ipso facto, a serviço do próprio.

E, por isso, muitos eleitores brasileiros pensam que aí é onde mora o inimigo principal - no neoliberalismo, isto é, num modo de governança que prega condução rigorosamente ascética das finanças públicas, controle permanente da inflação, políticas monetária e fiscal prudentes, políticas salariais proporcionais aos avanços da produtividade, gastos públicos judiciosamente planejados e competentemente executados, planos de desenvolvimento amadurecidos e implementados à medida que os recursos definidos para eles realmente apareçam.

Nada disso é neoliberalismo; nada disso nem é "neo". Tudo isso é tão velho quanto o surgimento da boa administração nos Estados modernos e é tudo isso que explica a situação saudável de muitas economias europeias. O Grande Satã, ou seja, os EUA, que pregam esses conceitos, não adere muito a eles. É uma nação que tem hoje sua liderança econômica mundial ameaçada exatamente por se ter afastado dos princípios da velha e boa governança, e aderido, de um lado, a demagogias populistas de tipo argentino-brasileiras; de outro, por ter relaxado a vigilância sobre seus fat-cats, particularmente os sopradores de bolhas financeiras anabolizadas pela internet, geradores de um capitalismo de papel irrefreável nos últimos 20 ou 30 anos.

Isso sempre existiu, desde a crise das tulipas da Holanda, em 1630, à das minas de carvão ou diamantes da África do Sul. "Pirâmides" financeiras, fundadas em nada mais do que caneta esferográfica e papel timbrado, não são novidade no mundo capitalista. Os IPO's de fumaça não tinham esse nome, mas em essência estavam por aí décadas antes de Eike Batista e dos "X" do problema. Fazem parte do capitalismo bucaneiro.

A diferença é que existiam e agiam em escalas menos notórias e em valores menos arrombantes e ribombantes do que os de hoje.

O que se passa com muitos governos do mundo desenvolvido, inclusive o do Grande Satã, é que as barretadas ao populismo e o relaxamento das rédeas sobre assaltantes do público e do erário geraram perigosa situação de descontrole da capacidade de governar seja a economia ou a política, nacional e a internacional.

Comentários ouvidos e lidos a toda hora nos dizem que o fim da disputa EUA-União Soviética, em vez de produzir a era de paz, gerou tamanho caos na política mundial, a ponto de um criminoso estúpido, qual um Átila hodierno, sequestrar 276 meninas numa escola infantil e ameaçar vendê-las a traficantes de prostitutas - sem que o front dos governos ditos civilizados do planeta saiba o que fazer e como fazer.

É a desordem, enfim, que irrompe por todas as partes, em todos os níveis, da administração dos municípios à das nações, percola os órgãos públicos e os estratos sociais de cima até embaixo e se derrama nas ruas na forma de crimes brutais, arruaças sem sentido, pleitos inatendíveis das populações ou indagações perplexas, irrespondíveis: "por que tudo isso?" - brada em lágrimas a mãe da garotinha varada pela bala perdida.

Porque governos de partidos ditos progressistas, como o PT, tentam governanças experimentais, como bruxos, e acusam de neoliberais os que apostam em governar de acordo com o manual que deu certo e dá certo nos melhores países.

*Marco Antonio Rocha é jornalista. E-mail: marcoantonio.rocha@estadao.com. 

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