'Dá dó na gente ver tudo isso; não entendo o que acontece'

Nasci e vivi quase toda a minha vida em São Roque (SP). Comecei na ferrovia com 23 anos, no cargo de trabalhador. Era desse jeito que chamavam o ajudante-geral, um faz-tudo que cuidava do trabalho pesado, na linha do trem. Era o cargo mais baixo da ferrovia. E eu amava aquilo. 

Entrevista com

Virgílio Fernandes, 79 anos, ex-funcionário da antiga Estrada de Ferro Sorocabana (EFS)

O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2014 | 18h09

Sempre gostei da ferrovia, desde menino. Entrei na Estrada de Ferro Sorocabana em 1958. Saí dela no dia 1.º de dezembro de 1987. Foram quase 30 anos de trabalho na ferrovia. Nesses anos, passei por todas as estações. Eram 800 quilômetros de linha. A gente ia até Presidente Epitácio, passava por Iperó, Sorocaba, Mairinque e São Roque. Seguia até a Estação Júlio Prestes. Era uma coisa linda. Fico lembrando, todos os dias. É muita coisa para lembrar. Não entendo por que acabou. 

Virei um especialista em eletricidade, cuidava da rede elétrica dos trens. Fui parar na estação Júlio Prestes, em São Paulo. Trabalhei lá por oito anos. Cuidava de todo tipo de trem. Tinha carro de passageiro, de carga, superluxo, restaurante, carro dormitório e até carro funerária. 

Os trens viajavam cheios. A ferrovia era o futuro. Todo mundo queria trabalhar nela. Mas era difícil entrar. Tinha de fazer exame, processo seletivo. As pessoas faziam uma fila enorme para fazer a inscrição. 

Muita gente nem conseguia preencher a ficha e tinha de voltar no outro dia. 

Lembro da estação de Mairinque. Ela era linda. Você já passou por lá? Hoje não tem mais nada, tudo abandonado, uma coisa feia. Dá dó na gente ver tudo isso que aconteceu. Não entendo por que fizeram isso. Como é que acabam com uma coisa dessas? A gente ouve, às vezes, que a ferrovia não serve mais pra nada, que não é rápida, essas coisas. Então eu lembro quando o trem chegava em Presidente Epitácio. As pessoas desciam as mercadorias das barcas que paravam no Rio Paraná, pra colocar as coisas no trem e seguir viagem. A ferrovia funcionava, e muito bem. Pois é. 

Hoje, a gente fica atolado no trânsito, dentro de carro. Uma viagem de Sorocaba até São Paulo demora até três horas. O trem fazia essa viagem em uma hora. Não faz sentido uma coisa dessas. Hoje as cidades cresceram. Muito mais gente precisa do trem. Por que ele não volta? É uma pena. Tinha de voltar tudo.

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