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Da euforia à ressaca

Os anos de 2001 a 2010 foram de excessos. Déficits fiscais próximos a 10% do Produto Interno Bruto (PIB), taxas de juros próximas a zero e liquidez e endividamento excessivos que produziram seguidas bolhas de ativos (Nasdaq, imóveis, etc.). O estouro da bolha imobiliária e o colapso do mercado de crédito nos Estados Unidos puseram um ponto final neste ciclo de extravagâncias dos governos e dos bancos centrais.

JOSÉ MÁRCIO, CAMARGO, PROFESSOR TITULAR DO , DEPARTAMENTO DE ECONOMIA , DA PUC/RIO, É ECONOMISTA DA OPUS INVESTIMENTOS, JOSÉ MÁRCIO, CAMARGO, PROFESSOR TITULAR DO , DEPARTAMENTO DE ECONOMIA , DA PUC/RIO, É ECONOMISTA DA OPUS INVESTIMENTOS, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2011 | 03h04

A reação do Banco Central (Fed) e do governo americanos foi aumentar ainda mais a liquidez, via monetização das dívidas públicas e privadas (QE1), e o déficit público. Essa primeira onda de monetização das dívidas foi fundamental para eliminar a assimetria de informações que vigorou no mercado de crédito com a falência do Lehman Brothers. Como ninguém sabia quem estava com as dívidas podres e quem estava com as boas, o mercado de crédito entrou em colapso. Ao garantir as dívidas, o Fed conseguiu dissipar os temores e o mercado de crédito voltou à normalidade, evitando o colapso da economia mundial.

Porém, como a origem da crise é o elevado endividamento das famílias e a excessiva alavancagem dos bancos e dos governos, o mercado de crédito continuou fraco; o crescimento, anêmico; e o desemprego, elevado. Equivocadamente, o Fed reagiu implementando um segundo round de monetização da dívida (QE2). Esse aumento de liquidez foi para o mercado de commodities, com o intuito de ampliar a oferta de crédito para os países emergentes, e o que permaneceu na economia americana foi depositado pelos bancos no próprio Fed.

À farra de estímulos se seguiu a ressaca de 2011. Os preços das commodities, em geral, e do petróleo, em particular, dispararam, diante do excesso de liquidez e dos riscos geopolíticos decorrentes dos levantes populares nos países árabes (causados pelo aumento dos preços dos alimentos), o que gerou queda da renda real e do consumo das famílias americanas. Como o consumo corresponde a 70% do PIB do país, as taxas de crescimento permaneceram medíocres (próximas de 1% ao ano), insuficientes para reduzir significativamente a taxa de desemprego.

No mundo emergente, com políticas monetárias e fiscais também frouxas, o excesso de oferta de crédito e os aumentos dos preços das commodities geraram apreciação cambial e forte pressão inflacionária, forçando os bancos centrais a aumentar as taxas de juros e apertar os controles sobre o crédito. A combinação de apreciação cambial, aumento das taxas de juros e controle de crédito produziu um efeito fortemente recessivo.

Este foi exatamente o comportamento da economia brasileira em 2011. De um crescimento de 7,5%, em 2010, o País irá fechar 2011 com uma taxa de crescimento de 2,8%. Nos últimos dois trimestres, a economia praticamente estagnou, puxada pelo fraco desempenho do setor industrial, com crescimento negativo neste período.

Com uma carga tributária elevada, legislação trabalhista inadequada, mercado de trabalho apertado, aumentos do salário mínimo real e do custo unitário do trabalho, baixo nível educacional da mão de obra e infraestrutura deteriorada, a indústria brasileira somente é competitiva com taxa de câmbio real estruturalmente muito mais depreciada do que os fundamentos atuais da economia brasileira justificam, ou com uma maior proteção comercial, o que, além de gerar conflitos com nossos parceiros comerciais na Organização Mundial do Comércio (OMC), aumenta os preços e diminui a qualidade dos bens industriais, reduzindo o bem-estar da população. O elevado grau de ociosidade da indústria mundial, principalmente na Ásia, torna a situação ainda mais difícil.

Neste cenário, o ano de 2012 para o setor industrial não deverá ser muito diferente do segundo semestre de 2011. Crescimento próximo a 1,5% ao ano, com o aumento da demanda sendo atendido primordialmente pelo aumento das importações. Com isso, o crescimento do PIB deverá ser alimentado pelo setor de serviços, que será favorecido pelo aumento de 14% do salário mínimo e pelos ganhos de salário induzidos pela baixa taxa de desemprego; e pela construção civil, beneficiada pelas obras da Copa do Mundo e da Olimpíada. Um cenário agravado pela retração do mercado internacional de crédito, em razão da crise na Europa. A região vai voltar à recessão já neste trimestre e em 2012, ao mesmo tempo que os Estados Unidos deverão continuar com crescimento relativamente baixo (próximo a 2% ao ano), o que vai afetar negativamente o crescimento do resto do mundo, inclusive da China.

Estamos estimando um crescimento de 2,5% para a economia brasileira em 2012. Apesar do baixo crescimento, a taxa de inflação continuará pressionada pelos preços dos serviços, permanecendo acima do centro da meta, em 5,7% em 2012. O agravamento da crise europeia tornaria este cenário otimista. Um colapso do euro ou o agravamento da crise bancária na região jogaria a economia mundial de volta a uma recessão ainda mais forte do que a ocorrida em 2009. Em suma, em 2012 vamos continuar a curtir a ressaca dos excessos de 2001 a 2010.

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