Da recessão técnica curta à estagnação mais prolongada

A economia brasileira recuou nos dois primeiros trimestres de 2014 e, portanto, passou por uma recessão técnica no primeiro semestre. Ocorre que, por esse critério automático, se registrar crescimento, mesmo mínimo, nos dois próximos trimestres, como prevê, no momento, a maioria dos analistas, terá tecnicamente deixado o estado recessivo.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2014 | 02h03

Por aí já se vê que o critério da recessão técnica, embora tenha a vantagem da simplicidade e da transparência, pode não ser o mais indicado para determinar o real estado de uma economia e, em consequência, das políticas econômicas mais adequadas para enfrentá-lo. Mesmo saindo da recessão técnica, a economia brasileira não deixará o terreno da estagnação, a se confirmar a baixa expansão prevista para o terceiro e o quarto trimestre, Depois da forte contração do segundo trimestre e da revisão para baixo do primeiro trimestre, as projeções para a expansão do PIB em 2014 passaram a sinalizar expansão entre zero e 0,5%.

Parece que os americanos fazem melhor, ao não considerar o critério automático dos dois trimestres para determinar um estado de recessão econômica. Nos Estados Unidos, um comitê independente de economistas é o responsável por decretar o ingresso e a saída de recessões, levando em conta uma gama ampla de fatores, com destaque para o comportamento do mercado de trabalho. O essencial, no fim das contas, é detectar a consistência da tendência de entrada ou saída da economia em situação de baixo crescimento.

Do ponto de vista da condução da política econômica, isso faz diferença. O critério automático, nesse aspecto, introduz incertezas. Se a recessão configurar, por exemplo, uma derrapada curta e temporária, as medidas de estímulo que viessem a ser tomadas para reverter o quadro poderiam impulsionar ainda mais uma economia que logo entraria em recuperação, trazendo riscos de promover um aquecimento excessivo. O inverso também seria verdadeiro.

A economia brasileira não se enquadra, no momento, em nenhum dos casos. A maior parte das estimativas estende a trajetória de baixo crescimento até pelo menos 2016, incluindo um período de ajuste corretivo dos desequilíbrios que se acumularam nos últimos anos.

Esses desequilíbrios estão na origem da desconfiança que ajudou a travar os investimentos em 2014. Responsável principal pelo recuo do PIB no segundo trimestre, sua contração sinaliza dificuldades adicionais para a retomada do crescimento.

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