Amanda Perobelli/Reuters
Amanda Perobelli/Reuters

Brasil cria 2,7 milhões de vagas com carteira assinada em 2021, diz governo

Caged trata apenas do mercado formal, com carteira. Já o mercado de trabalho brasileiro é formado, na sua maior parte, pelo trabalho informal, o que gera diferença com os números do IBGE

Guilherme Pimenta, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2022 | 09h41
Atualizado 31 de janeiro de 2022 | 11h58

BRASÍLIA - A economia brasileira gerou 2,7 milhões de vagas em 2021, de acordo com os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados nesta segunda-feira, 31, pelo Ministério do Trabalho e Previdência

Ao todo, segundo o ministério, o país registrou, no último ano, 20.699.802 contratações e 17.969.205 demissões. O resultado ficou abaixo das expectativas do mercado financeiro, que esperava abertura de 2,868 milhões de vagas, segundo analistas consultados pelo Projeçoes Broadcast, e também do presidente Jair Bolsonaro, que disse que seriam criadas 3 mihões de vagas com carteira assinada no ano passado. 

Os dados do Caged podem ser revisados até um ano após novas demissões e contratações. No ano passado, no fim de janeiro, o Ministério da Economia divulgou que em 2020 as admissões haviam superado as demissões em 142.690 empregos. Depois das revisões, os dados apontam para destruição de 191.455 vagas, ao contrário do que o governo alardeou durante todo o ano. 

O ministro do Trabalho e Emprego, Onyx Lorenzoni, disse que a criação de empregos em 2021 representa a melhor marca desde 2010. No entanto, a comparação dos números com anos anteriores a 2020, segundo analistas, não é mais adequada porque o governo mudou a metodologia no início do ano passado.

"Embora a série de dados do 'Novo Caged' não seja diretamente comparável à série histórica anterior, os resultados vistos no ano passado corroboram nossa avaliação de resiliência do mercado de trabalho formal brasileiro em meio à pandemia,como reflexo dos estímulos monetários e fiscais massivos adotados desde meados de 2020", afirma o economista da XP Investimentos Rodolfo Margato, em nota.

Todos os setores tiveram resultado positivo em 2021. O desempenho foi puxado pelo setor de serviços, com a criação de 1.226.026 postos formais, seguido pelo comércio, que abriu 643.754 vagas. Já a construção civil gerou 244.755 vagas no ano, enquanto houve um saldo de 475.141 contratações na indústria geral. Na agropecuária foram abertas 140.927 vagas em 2021.

O Caged trata apenas do mercado formal, com carteira. Já o mercado de trabalho brasileiro é formado, na sua maior parte, pelo trabalho informal - daí a diferença com os números do IBGE.

Onyx afirmou que a criação de 2,7 milhões de empregos gerados em 2021 é resultado das políticas do governo do presidente Jair Bolsonaro, principalmente os programas emergenciais criados durante a pandemia que permitiram as empresas suspenderem contratos ou reduzirem jornada e salários em vez de demitirem funcionários. Somente em dezembro, segundo dados do governo, mais de 2 milhões de trabalhadores ainda estavam "protegidos" pelo programa.

A XP estima desaceleração do mercado de trabalho em 2022, com criação de 950 mil postos de trabalho formais, considerando uma média mensal de 100 mil ao longo do primeiro semestre e de 60 mil na segunda metade do ano.

"A dissipação dos benefícios do programa BEm [Benefício Emergencial de Preservação do Emprego e da Renda, que permitia a suspensão dos contratos ou redução dos salários] e o arrefecimento contínuo das admissões devido ao enfraquecimento da demanda doméstica são as principais razões por trás desse cenário", diz Margato. As projeções levam em conta um arrefecimento do Produto Interno Bruto (PIB), de alta de 4,4% em 2021 para estabilidade (0,0%) este ano.

Para o economista da LCA Consultores Bruno  Imaizumi,  conforme o término das garantias provisórias estabelecidas pelo BEm e a perda de fôlego esperada para atividade econômica, os números positivos do Caged tendem a diminuir de patamar. Para 2022, a LCA espera crescimento de 0,7% do PIB e prevê desaceleração do mercado de trabalho, com projeção de saldo líquido de 895 mil vagas.

Dezembro negativo

Como é comum para os meses de dezembro, o mercado de trabalho formal registrou um saldo negativo de 265.811 carteiras assinadas no mês passado, de acordo com os dados do Caged. O resultado sucede a criação de 300.182 vagas em novembro (dado revisado hoje).

O resultado do mês passado decorreu de 1.437.910 milhão de admissões e 1.703.721 milhão de demissões. Em dezembro de 2020, houve fechamento de 157.474 vagas com carteira assinada.

O mercado financeiro já esperava um recuo no emprego no mês. Porém, o resultado ficou pior do que a expectativa de fechamento de 171 mil vagas na pesquisa Projeções Broadcast. Segundo Onyx, as demissões ocorridas em dezembro são naturais e fazem parte da dinâmica do mês, de contratar trabalhadores de forma temporária.

O desempenho foi puxado pelo setor de serviços no mês, com a destruição de 104.670 postos formais, seguido pela indústria geral, que fechou 92.047 vagas. Já a construção civil eliminou 52.033 postos em dezembro, enquanto houve um saldo positivo de 9.013 contratações no comércio. Na agropecuária foram fechadas 26.073 vagas no mês.

Para  o economista da Rio Bravo Investimentos João Leal, o resultado de dezembro é uma surpresa negativa que reflete a fragilidade da atividade econômica no País.  "Acho que esse resultado reflete bem a fraqueza econômica que nós já antevíamos para dezembro", diz Leal. "Setorialmente, temos algumas áreas performando pior, com destaque para a indústria e os serviços."

"Houve uma recuperação forte do emprego, mas muito relacionada à recomposição de vagas em setores que ainda estavam defasados, e o estoque de empregos agora é maior do que no pré-pandemia, por uma questão de metodologia", diz o economista. "Também é muito provável que esse número seja revisado para baixo quando novos dados entrarem na base."

A Rio Bravo estima queda de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2022 e desaceleração do mercado formal de trabalho este ano. "Provavelmente o Caged vai ficar próximo da estabilidade, mais perto de 2020 (-191.455 vagas) do que de 2021", afirma Leal.

Em dezembro, somente duas unidades da Federação criaram vagas: Alagoas e Paraíba, com 615 e 61 postos, respectivamente. Já no consolidado anual, todas registraram criação de postos, lideradas pelas regiões Sudeste (1.3 milhões de vagas), Sul (480 mil) e Nordeste (474 mil). 

Salário médio cai

O governo também informou que o salário médio de admissão foi de R$ 1.793,34 em dezembro do ano passado, o que representa queda real, com os valores sendo corrigidos pelo INPC, de R$ 115,85 em relação a dezembro de 2020 (R$ 1.909,19).  

Os dados acerca de salários no Caged também mostram continuidade da redução da renda, segundo Leal, que vê uma piora qualitativa no mercado de trabalho. Com isso, a tendência é de um potencial de consumo menor à frente, com impacto negativo sobre a atividade.

“Está em patamares mínimos, reflete esse momento de crise em que os indivíduos acabam aceitando salários menores mesmo dentro do mercado de trabalho formal”, disse  Imaizumi, da LCA./  COLABORARAM CÍCERO COTRIM E MARIANNA GUALTER

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