Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Dados da produção industrial reforçam cenário ainda desafiador, dizem analistas

Especialistas consideram a alta de 0,5% da indústria em setembro ante agosto uma boa notícia, mas afirmam ser insuficiente para compensar perdas anteriores

Gabriela Lara, Gustavo Porto e Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

01 Novembro 2016 | 13h27

SÃO PAULO E PORTO ALEGRE - Os resultados da produção industrial divulgados na manhã desta terça-feira, 1º, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), reforçam a percepção - já apontada por outros indicadores de atividade - de que o cenário ainda é desafiador no curto prazo. Esta é a avaliação de analistas consultados pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado. Embora a alta de 0,5% da indústria em setembro com relação a agosto seja considerada uma boa notícia, é insuficiente para compensar perdas anteriores, indicando uma recuperação tímida, que terá reflexos no Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre.

Entre julho e setembro, a indústria caiu 5,5% ante igual período de 2015, conforme o IBGE. No ano, a retração acumulada é de 7,8% e, em 12 meses, de 8,8%. O principal destaque negativo do resultado de setembro ficou por conta da produção de bens de capital, que diminuiu 5,1% na margem. "Era o grupo da indústria que vinha apresentando melhores resultados", falou o economista Luiz Fernando Castelli, da GO Associados. 

"A queda (de bens de capital) reforça que a virada esperada da atividade no terceiro trimestre não aconteceu", disse o economista Daniel Gomes da Silva, do Modal Asset, acrescentando que os números colocam um viés de baixa nas expectativas para o PIB.

Ele acredita que os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM), assim como os indicadores recentes de varejo, emprego e confiança mais desfavoráveis que o esperado, sinalizam um número pior para PIB do terceiro trimestre e, consequentemente, para os períodos à frente. 

Por enquanto, o economista prevê recuo de 0,8% para o PIB entre julho e setembro, mas adianta que a projeção será revisada para baixo. "Além disso, o resultado é importante pois deve prejudicar as previsões para o PIB do quarto trimestre. Muitos estavam esperando sutil alta, mas pode ser que isso não se confirme", afirmou.

O economista-chefe da Quantitas Asset Management, Ivo Chermont, concorda que a produção industrial de setembro aponta para uma queda mais forte do PIB no terceiro trimestre. "Os dados de julho pareceram razoáveis, indicando que a atividade pudesse estar chagando no platô, mas os de agosto foram impressionantemente desastrosos. A produção industrial (de setembro) também veio fraca", disse. 

Há três meses, Chermont estimava zero para o PIB do terceiro trimestre com relação ao do segundo trimestre. Agora, prevê queda de 0,7%. "Mas pode ser que até seja um recuo mais de 1%", sentencia.

Em relatório, o Credit Suisse avalia que o tombo de bens de capital em setembro mostra que provavelmente os investimentos terão queda substancial no terceiro trimestre na formação do PIB, invertendo o crescimento verificado no segundo trimestre. Para o banco, os dados disponíveis sugerem retração de 0,8% da atividade entre julho e setembro.

O economista Fabio Silveira, sócio e diretor da MacroSector, entende que o crescimento de 0,5% na produção industrial em setembro ante agosto e, principalmente, o aumento de 1,9% no segmento de bens duráveis, fornecem "indícios sólidos de que chegamos ao fundo do poço" no setor. 

Copom. Para Luiz Fernando Castelli, da GO Associados, a política monetária, "ainda muito contracionista", está dificultando uma recuperação mais consistente da economia brasileira. Além disso, o câmbio menos favorável para a exportação influencia negativamente. "A gente percebe que houve melhora de expectativa logo no começo do ano e ela já começa a ceder. O Banco Central não atuou no sentido de estimular economia, se preocupou mais com a inflação. Para a atividade, isso se tornou um entrave", disse.

Ele aposta que, diante do cenário atual, o Banco Central deverá "apertar um pouco o passo" na próxima reunião no Comitê de Política Monetária (Copom), este mês, o que significaria subir a intensidade do corte da taxa básica de juros. A opinião é compartilhada por Daniel Gomes da Silva, da Modal Asset. 

Segundo Gomes da Silva, a sensação de que a atividade ainda não está no caminho de firme recuperação pode fazer com que o Copom aumente o ritmo de redução da Selic de 0,25 ponto porcentual para 0,50 ponto no encontro de novembro. Ele diz que, em agosto, o Banco Central tentou minimizar a atividade, mas a partir de agora o BC terá de revisar seu cenário de crescimento econômico para baixo. "Até a reunião, os dados (fiscais e inflacionários) vão evoluir positivamente e, como a atividade sinaliza retomada gradual, abre janela para acelerar o corte", afirmou.

Mesma avaliação é feita pelo Haitong Banco de Investimentos do Brasil, em relatório. O texto diz que, seja do lado de bens voltados para consumo, seja do lado de bens voltados para investimentos, a situação do setor industrial não parece coadunar com a análise mais otimista que a autoridade monetária brasileira tem apresentado sobre os rumos da atividade econômica. Por este motivo, o banco acredita que taxas de crescimento mais robustas só deverão acontecer no médio prazo. 

"Assim sendo, mantemos nossa expectativa de que este quadro ajudará o Banco Central a optar por um ritmo mais célere de ajuste da taxa básica de juros à frente", coloca o relatório, acrescentando que, nesse sentido, o Copom tende a cortar em 0,5 ponto porcentual a Selic já em novembro.

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