'Dados estão mostrando uma piora do cenário', diz economista do Merrill Lynch

Na avaliação do economista-chefe do Bank os American Merrill Lynch, o Brasil vai continuar crescendo pouco com inflação próxima do teto da meta

Entrevista com

David Beker

Luiz Guilherme Gerbelli, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2014 | 02h04

O economista-chefe do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil, David Beker, acredita que os indicadores mostram uma atividade econômica fraca no segundo semestre. Em 2014, o banco prevê um crescimento para o Brasil de 1,6%. Em 2015, o PIB deve avançar 2%. "Vislumbramos um quadro de baixo crescimento com uma inflação que ainda fica próxima, por alguns anos, entre o centro e o teto da meta", disse Beker. A seguir os principais trechos da entrevista.

O ano de 2014 se mostra desafiador para o Brasil. Como o sr. avalia o desempenho da economia?

Os dados estão mostrando uma piora do cenário. A confiança vem caindo mais forte do que se imaginava e, com relação ao mercado de trabalho, o último resultado do Caged mostrou um dado um pouco mais preocupante do que os anteriores. Tudo está corroborando a ideia de uma atividade relativamente fraca na segunda metade do ano. Estamos trabalhando com um crescimento de 1,6% este ano, mas claramente os riscos estão aumentando. Hoje, ainda não se vislumbra qual seria o fator que poderia mudar o padrão dessa atividade de curto prazo.

Em 2013, apostava-se que o setor externo poderia ajudar no crescimento. Algum motor da economia está funcionando?

Houve uma piora da Argentina, mais dúvidas com relação à China, e um adiamento do cenário positivo para os Estados Unidos. Então, o setor externo acabou não sendo esse canal (de recuperação). A gente imagina que, ao longo do tempo, ele deve voltar a ter um papel no crescimento. A outra coisa é que o investimento perdeu um pouco de momento. Em ano eleitoral, o investimento é mais conservador. Na hora em que o quadro eleitoral fica para trás, o investimento volta.

E a inflação?

A gente vê uma trajetória gradual de desaceleração. Estamos falando em 6,5% para este ano e de 6,3% para o ano que vem, mas o problema é o represamento dos preços administrados. Qualquer folga na inflação vai ser ocupada pelo retorno dos preços administrados. Vislumbramos um quadro de baixo crescimento, com uma inflação que ainda fica próxima, por alguns anos, entre o centro e o teto da meta.

Qual é a expectativa de crescimento econômico para 2015?

Também é desafiador. Vemos a necessidade de algum ajuste na política econômica. Independentemente de quem ganhar a eleição, será preciso uma melhora mais estrutural no quadro fiscal e provavelmente algum aumento residual do juro. Eu diria, obviamente que, quanto mais fiscal, menos juro. Com a piora da atividade, o cenário para o juro está mudando um pouco, mas ainda a gente vislumbra uma necessidade de ajuste, que ainda vai deixar a economia abaixo do crescimento potencial. Estamos projetando um crescimento de 2% para 2015, comparado com um potencial de 2,5%.

Diante desse cenário, como devem se comportar os juros?

A gente acredita em estabilidade até o fim do ano. O nosso cenário é de um aumento de 100 pontos base no ano que vem, mas a piora da atividade vai dar uma folga maior na inflação. Se isso for combinado com algum tipo de ajuste fiscal, eu acho que está diminuindo a chance e a necessidade de aumento de juros no ano que vem, embora, esse ainda seja o cenário básico.

Existe um excesso de pessimismo no Brasil?

Eu acho que tem, sim. Se houver uma sinalização de melhora de mix de política econômica, esse pessimismo some. Para dar um exemplo, hoje o investidor gringo está muito mais otimista com o Brasil do que o local. O Brasil tinha saído do radar, em parte, porque havia essa percepção de fundamento ruim, mas as outras histórias que o investidor estrangeiro olhava, como Rússia, África do Sul e Turquia, pioraram. O México também não entregou o crescimento que o mercado imaginou. Com isso, o Brasil entrou de novo no radar do investidor estrangeiro.

Essa visão positiva se estende no próximo ano?

Se estende, mas eu ressalto que a visão do estrangeiro é muito sensível ao juro americano. Então, às vezes, mais importante do que o fundamento doméstico é o que vai acontecer com os juros nos EUA. Se o juros eventualmente subirem muito rápido, pode ser que não só o Brasil, mas os demais emergentes percam um pouco de atratividade.

Qual deve ser o comportamento dos juros nos EUA?

Tem de separar o juro de mercado - esse a gente imagina que vai subir até o fim do ano - e o juro do Fed (Federal Reserve, o banco central dos EUA). No caso do juro do Fed, a gente acha que o primeiro aumento ocorre só no quarto trimestre de 2015. Embora a economia americana esteja se recuperando, não se notam grandes sinais de inflação. A gente acha que o Fed tem a seguinte preocupação: se ele sobe o juro agora e a atividade não tem o desempenho como se imagina não tem muito espaço para cortar o juro. Queimar o cartucho não faz muito sentido.

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