Dados foram manipulados, sugere pesquisador

Guido Mantega usa números de entidade de economista para dizer que País não é protecionista

LONDRES, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2012 | 03h07

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, classificou como "absurda" a acusação do governo dos Estados Unidos de que o Brasil estaria adotando medidas protecionistas e, para provar que o País não seguia essa linha, apresentou ontem a investidores dados da entidade Global Trade Alert para mostrar que o Brasil era superado por "vários outros governos" em termos de barreiras. "Perdemos de longe para a maioria dos países", disse Mantega.

Mas, ao Estado, o economista que comanda a entidade com sede na Suíça e que produziu os números insinua a manipulação de seus dados por Mantega e desmente a tese de o Brasil estar no "final da fila". "É verdade que oito outros países adotaram mais medidas que o Brasil. Mas 194 outras economias fizeram menos", ironizou o professor Simon Evenett, fundador do Global Trade Alert, entidade financiada pelo Banco Mundial.

Há dois dias, o Estado revelou que a Casa Branca enviou uma dura carta ao governo brasileiro, alertando que a adoção de medidas protecionistas poderia ameaçar a relação bilateral.

Ontem, durante discurso de 30 minutos a investidores em Londres, Mantega pediu licença para "protestar" contra essas acusações. Usando dados da Global Trade Alert, Mantega insistiu que o Brasil estava "distante na fila" dos países que mais adotam barreiras. Segundo ele, EUA, Reino Unido e Alemanha estariam à frente do Brasil. "O Brasil é chamado de protecionista. Isso não é correto. Não somos", disse. "Nós perdemos de longe da maioria dos países. Os EUA adotaram número maior de medidas protecionistas que o Brasil."

Evenett fez questão de desmentir o ministro. "Houve uma aceleração da adoção de barreiras no Brasil nos últimos seis meses", indicou o economista. Nesse período, apenas a Argentina adotou mais medidas que o País. "Esse aumento faz parte de uma política industrial. O Brasil quer reservar seu mercado doméstico a empresas nacionais. Por anos, essa havia sido a política que o Brasil usou e não funcionou. Agora, o governo está dando um passo de volta ao passado ", declarou Evenett, por telefone da Suíça.

Pelos dados da entidade, foram 56 medidas protecionistas adotadas pelo Brasil desde 2008, criando defesas para 33 setores da economia e afetando as taxas de 258 produtos.

Mantega tinha outra explicação: "Houve um grande aumento de importação para aproveitar dinamismo do mercado doméstico. É verdade, tomamos algumas medidas. Mas perdemos de longe da maioria dos países". / J.C.

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