Wenderson Araujo/CNA/Triluz
Wenderson Araujo/CNA/Triluz

Dados positivos levam bancos e FMI a elevar as previsões para o PIB do Brasil; entenda os motivos

Vendas mais aquecidas no comércio, liberação do FGTS e alta dos preços de produtos agrícolas e minerais dão fôlego à economia

Renée Pereira e André Jankavski, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2022 | 05h00

Uma série de dados positivos, como alta nas vendas do varejo, aumento no preço das commodities e liberação do FGTS, tem levado bancos, consultorias e instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) a revisar para cima a previsão de crescimento da economia brasileira neste ano. No caso das previsões do FMI, divulgadas ontem, o Brasil deverá crescer 0,8% (a expectativa anterior era de 0,3%), ante crescimento mundial de 3,6% (4,4% antes).

O conflito entre Rússia e Ucrânia explica tanto a revisão para cima do crescimento de alguns países, como o Brasil, quanto a queda do avanço mundial. A alta no preço das commodities pressiona a economia, sobretudo a da Europa, mas dá algum fôlego para países exportadores de grãos.

Para se ter uma ideia, as exportações brasileiras do agronegócio tiveram o maior valor para o mês março da história, a US$ 14,53 bilhões, alta de 29,4% em relação ao mesmo período do ano passado. O principal motivo foi o aumento de 27,6% nos preços praticados, segundo o Ministério da Agricultura.

No mercado interno, as vendas no varejo em fevereiro, por exemplo, tiveram alta de 1,1%, de acordo com o IBGE, acima das expectativas do mercado. Já em serviços, apesar da queda de 0,2% em fevereiro, os analistas ainda veem perspectiva positiva. “O setor de serviços está voltando a ir bem com o avanço da vacinação, e as pessoas estão se sentindo estimuladas a consumir fora de casa”, diz Claudio Considera, pesquisador associado do FGV-Ibre.

O peso dos juros

Existe, porém, a avaliação entre os economistas de que essa melhora nos números poderá perder fôlego. “A partir do meio do ano, vemos uma contração maior da economia brasileira por causa do ciclo de alta dos juros”, diz o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles. A instituição reviu de 0,5% para 1,5% o PIB deste ano, mas o de 2023 foi mantido em 0,5%. No caso do FMI, a projeção para o ano que vem foi reduzida de 1,6% para 1,4%.

Salles afirma que, no curto prazo, as notícias permitem estimar um PIB um pouco maior. “O conjunto de algumas boas notícias permitiu essa revisão. Por exemplo, os reservatórios tiveram melhora e isso significa custo menor da energia para as empresas. Tudo isso junto contribui para a melhora da atividade. Mas ainda está muito aquém do desejado,” afirma.

A consultoria MB Associados também está em processo de revisão de seus números. A expectativa é de que o crescimento mude de zero para algo entre 0,5% e 1% no ano. Isso, no entanto, não quer dizer que as notícias devem ser tão positivas lá na frente.

O problema, diz o economista-chefe da MB, Sérgio Vale, ficará para 2023. Isso porque parte do crescimento deste ano também está sendo motivada pelo “pacote de bondades” adotado pelo governo, de olho na campanha de reeleição do presidente Jair Bolsonaro, como a liberação do saque emergencial do FGTS, a liberação do Auxílio Brasil e o aumento dos salários do funcionalismo.

“Ter algum crescimento é algo para se comemorar, mas é muito aquém do que poderíamos”, diz ele. Pelos dados do FMI, o México deve crescer 2% neste ano, enquanto África do Sul e Índia devem avançar 1,9% e 8,2%, respectivamente.

O economista do Itaú Unibanco, Luka Barbosa, diz que neste ano, dos três motores de crescimento do PIB, dois têm trajetória positiva, como o preço das commodities e o estímulo fiscal feito pelo governo. No ano que vem, as incertezas são maiores. “Há expectativa de arrefecimento do preço das commodities, os juros ainda continuarão altos e não deverá haver estímulo fiscal.” Por isso, as projeções para este ano foram revistas de 0,2% para 1% e para 2023, de 0,5% para 0,2%.

Para Celso Toledo, sócio da consultoria LCA, as previsões para este ano melhoraram diante de pequenos suspiros de boas notícias, mas o futuro ainda é complicado. “Creio que ninguém tenha mudado o cenário de crescimento medíocre a perder de vista” afirma Toledo.

 

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