Dados sobre a soja brasileira surpreendem nos EUA

Um estudo publicado em novembro pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, pelas iniciais em inglês) revelou a apreensão de Washington diante dos espetaculares ganhos de competitividade que o Brasil obteve, em anos recentes, na produção de soja e milho, e do desafio que isso representa para a posição dos subsiadíssimos produtores norte-americanos no mercado internacional. Sexta-feira, o economista André Pessoa, da Agroconsult, forneceu novos motivos de preocupação aos técnicos do USDA e a centenas de analistas do mercado de commodities agrícolas dos Estados Unidos. Convidado a falar no Fórum sobre as Perspectivas da Agricultura Mundial, promovido anualmente pelo USDA, ele afirmou que as análises feitas em Washington sobre o desempenho da agricultura brasileira são falhas, e erram sempre para menos. "O USDA subestimou sistematicamente a produção de grãos no Brasil e na Argentina em anos recentes, especialmente na soja", disse ele. "Nos últimos cinco anos, o erro de cálculo foi, em média, de 18%." Segundo Pessoa, a repetição do equívoco não se deve a uma tentativa deliberada de o governo norte-americano influenciar o mercado internacional e elevar os preços durante o período da colheita no Hemisfério Norte, projetando safras mais baixas, como supõem os produtores brasileiros. "O erro das estimativas deriva de uma visão simplista, segundo a qual os ganhos de competitividade da agricultura brasileira devem-se à desvalorização da moeda e à abundância de terra e mão-de-obra barata", afirmou o economista. "Essa visão ignora o complexo processo de modernização que o setor vive hoje graças a vários fatores, a começar pelos efeitos positivos da estabilização da economia brasileira desde 1994." O trabalho que Pessoa preparou para o fórum, em parceria com o economista Marcos S. Jank, professor da Universidade de São Paulo e atual pesquisador visitante no Banco Interamericano de Desenvolvimento, lista dez categorias de fatores que, segundo ele, explicam a revolução de produtividade e de competitividade em curso na agricultura brasileira:A melhoria da logística dos transportes propiciada pela nova legislação sobre portos, a privatização das ferrovias e das rodovias estaduais e federais e o aumento do uso das hidrovias; a globalização do comércio da indústria de insumos, que aumentou as transferências de tecnologia e a disponibilidade de crédito; a revolução no gerenciamento das atividades da agricultura brasileira, com a contínua incorporação de novas tecnologias; a modernização da capacidade para participar do mercado, graças a novos instrumentos e operações; a isenção de impostos para a exportação; o aumento da produção e exportação de carnes, que estimulou a demanda por grãos para ração; e a paulatina mudança da imagem da agricultura e dos agricultores. DiferençasSegundo Pessoa, a análise de todos esses fatores em conjunto mostra que a desvalorização da moeda, embora tenha contribuído para aumentar a competitividade da agricultura brasileira, é apenas uma parte - e uma parte pequena. Ele ilustrou o argumento mostrando uma tabela comparativa dos custos de produção de soja no Meio-Oeste dos EUA, no Paraná e no Mato Grosso. Enquanto um saco de soja custa US$ 11,72 para ser produzido nos EUA, o produtor brasileiro consegue produzir por US$ 6,60 no Paraná e US$ 6,23 no Centro-Oeste. Boa parte dessa vantagem decorre da fato de a produtividade brasileira em soja já ter ultrapassado e estar se distanciando cada vez mais da americana. "E nós estamos apenas começando", avisou. "Esperamos melhorar ainda mais a nossa competitividade nos próximos anos e, conseqüentemente, a nossa fatia no mercado mundial de grãos." Pessoa listou os fatores que, segundo ele, operam a favor do aumento da produção e de uma crescente presença futura do Brasil no mercado internacional de grãos: o crescimento sustentado da economia, os investimentos na infra-estrutura de transportes, a consolidação da posição do País como um dos maiores fornecedores mundiais de carnes, a autorização para a produção comercial de grãos geneticamente modificados, a reforma tributária, um novo sistema de financiamento à agricultura, a introdução de um amplo programa para agregar valor à produção e exportação agrícola e a reorganização do sistema de armazenagem. Por todas essas razões, o economista previu que, daqui para a frente, "o Brasil será cada vez mais agressivo na denúncia dos subsídios à produção e protecionismo agrícola nos países desenvolvidos". As perguntas que Pessoa suscitou na platéia confirmaram o impacto das informações que ele forneceu, numa apresentação marcada pelo estilo assertivo e autoconfiante que já começa a ser a marca da atuação da nova geração de executivos brasileiros em eventos internacionais. A um analista que se preocupou em saber o potencial de terra boa que ainda não entrou na produção, o economista respondeu: "Quando os meus netos forem grandes, ainda haverá muita terra disponível no Brasil para a agricultura", disse Pessoa, que tem 34 anos e é pai de um menino de 3. Um outro membro da platéia, ciente do efeito baixista que os subsídios à produção nos países ricos tem nos preços internacionais, perguntou sobre o preço que o produtor de soja do Brasil está preparado para agüentar. "Com sacrifícios, US$ 4 por bushel em Chicago", disse. "Mas o fato é que nós somos capazes de compensar com competividade os subsídios dos países ricos; mesmo que o custo da terra nos EUA fosse zero, nós continuaríamos a ser mais competitivos do que vocês."

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